25.1.10

A Terra e o Mar



«E, a passo, o breque foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão...»

Eça de Queiroz in «Os Maias»


Ali estava eu em Sintra. A vila que não quer ser cidade. Sintra imortalizado pelo pena do meu conterrâneo Eça e por Lord Byron que a considerou o “Eden Glorioso”.

Pela primeira vez iria participar no «Grande Prémio "Fim da Europa"». Tinham-me referido como sendo uma prova difícil, mas se fosse fácil eu não estaria ali. Olho para as escarpas encimadas pelo Palácio da Pena. Que loucura do homem fazer um Castelo em tão alta penedia.

Quando vou para as provas faço questão de conhecer quem comigo partilha a escrita neste tipo de comunicação. Assim, através do Adelino, conheci a Otília e o José Brito e a Ana Pereira que fazia anos (mais uma vez Parabéns Ana). O amigo Fábio bem me procurou o Carlos Lopes mas não encontrado.

Prova começada. Perco de vista o Adelino e a filha Susana e começo a subir, subir, subir. Junto-me à Susana e as subidas nunca mais acabam. Olho para cima, vários patamares de gente correndo, ora num sentido ora noutro. Vejo o meu amigo João Melo, acelero e colo-me a ele mas foi um colar de pouca dura, não era supercola3 e lá se foi ele embora. Passam por mim os amigos Pedro Ferreira, o Hamilton e Fernando Faria, olho para trás para ver se só faltava passar o carro-vassoura mas, para meu alívio, tal não vislumbrei. Perco a pedalada começo a andar e, no último km a subir, quase que tenho vontade de dar meia-volta e começar a descer, mas sabia que faltava pouco para chegar ao cume. Durante o percurso vários ciclistas aproveitavam para nos saudar... E o céu ali tão perto!

Olho para baixo, para o verde da vegetação... Lindo! O céu, cinzento, aparecia entre as ramagens das árvores. Com o apoio do Carlos Coelho e incentivado pelo Adelino (obrigado amigos) atinjo o cume. Eis a descida. O Carlos acelera e eu vou com ele. Não corríamos, “voávamos”, deu vontade de ir à “reboleta” pela serra abaixo.

O Carlos, fazendo juz ao apelido, acelera cada vez mais, eu vou ficando, mas sempre numa boa passada (isto é como os carros, por mais rápido que a gente vá há sempre um carro que vai mais depressa).

Ao longe vou divisando o Cabo da Roca e o mar, ah, o mar! E eu que nasci tão perto de ti, agora tenho que subir e descer para te ver.

Um vento lateral forte vai-me empurrando, vejo a Otília e mais um esforço e estou a seu lado, mas quem treina nos trilhos de Almourol não dá hipótese e eu fico mais uma vez para trás numa luta solitária com o vento.



Corto a meta, dirijo-me à tenda, a medalha coloco-a com orgulho ao peito, peço um sumo, vou até às mesas e uma cantiga do Zeca me assoma:

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada!

Zeca, antes os vampiros eram os sisudos, agora até se riem na cara de quem lhes faz reparo para os sacos cheios. Pobres coitados!


Para o ano irei fazer esta prova de outra forma. Fica aqui o registo para não me esquecer!

Tempo Oficial: 1h33'42" (Nesta prova baptizaram-me de Mário Lino, Mário Lino "jámé"!!!)

Mais canções do Zeca Aqui

6 comentários:

Fábio Pio Dias disse...

Olá amigo Mário!

Como sempre é com imenso gosto que gosto de o rever pessoalmente, pois aprecio a sua atitude perante os amigos de outrora e os de agora, sempre com um sorriso nos lábios e uma palavra amiga, além da experiência que espalha nas corridas de rua, porque tendo feito pela 1º. vez e sendo uma prova que não é facil, saíu-se brilhantemente.

Quanto ao post nada acrescentar a esta bela narrativa, quanto aos vampiros, cheguei a ver pessoas com sacos, mas fazer o que com os gente desta índole que só olham para o próprio umbigo...

Um abraço e até breve, numa qualquer estrada/asfalto por aí!

Anónimo disse...

Companheiro
parabéns pela prova e pelas palavras, as tuas, também as de Eça (li toda sua obra era eu ainda bem jovem) e as do José Afonso, "Vampiros", apesar de tudo, mal por mal, antes os que domingo por aquelas bandas apareceram que os outros, esses então é que nunca mais.
Continuação de boas corridas.
Grande abraço,
António Almeida.

JOSÉ LOPES disse...

Olá Mário

O texto dos MAIAS narra detalhadamente tudo o que vimos (ou quase) ao longo do percurso.

Parabéns pelo excelente desempenho,estás em forma.

Era uma prova dura.
Mas de uma beleza raramente encontrada, nas provas que vamos participando.

Espero que as "dicas" tenham servido para um melhor conhecimento das dificuldades que poderias encontrar no trajecto da corrida.

Continuação de bons treinos e de muitas corridas

Com os cumps
J.Lopes

joaquim adelino disse...

Olá amigo Lima.
Uff! finalmente cheguei, desde o Fim da Europa ainda não parei e desta vez consegui mesmo chegar aqui ao fundo, mas cheguei.
Sobre a prova meu amigo estamos conversados, damos um pézinho e é vê-lo abalar, e eu que aproveitei a parte final daquela subida infernal para me escapar, mas rapidamente comecei a ouvir vozes, olha que ele vem aí, e os passos a ouvirem-se cada vez mais nítidos, e de repente foi um ar que lhe deu.
Palavra, senti logo ali que tinha companheiro para as longas jornadas que vamos ter pela frente, e podes crer que fiquei muito satisfeito pela forma como reagiste áquelas dificuldades. Basta prosseguir este caminho, o resto vem pela força de vontade e espírito de sacrifício, e mal de um Comando que se negue a enfrentar tal empreitada.
Caro amigo, ainda bem que em determinada altura abandonaste o anonimato, anonimato esse que em determinada altura ia dando comigo em doido, já conquistaste um espaço merecidíssimo neste meio blogosférico e este caminho trilhado já não tem regresso possível, e o futuro é o caminho e a tua chegada representa isso mesmo, o futuro. Muito temos a aprender. É um regalo ler os textos e as mensagens que aqui encontramos e tambem uma acertividade muito vincada que vai cativando cada vez mais e mais amigos, parabéns por isso.
Um abraço.

Vitor Veloso disse...

Olá amigo Mário,
Belo post que publicou, muito agradável ler suas palavras.
A prova ate que lhe correu bem, muitos parabéns. Imagino a subida ate ao Palácio da Pena deve ser terrível, imagino o cansaço dos atletas.
De carro faz-se bem!!!!!! hhihihihihih

Que tudo lhe corra bem.

Grande abraço

Vitor Veloso

JAM disse...

Dá gosto ler as tuas palavras, Mário, assim como também dá gosto ouvir a tua voz amiga e sempre bem disposta, lá para o 6ºkm, "ó João Melo!!!!!" Quanto à prova, há que reconhecer que está muito bem organizada...de fazer corar a Associação de Atletismo de Lisboa e a vergonha do Grande Prémio de Natal. A tua prestação, mesmo vindo de uma lesão, foi boa e tomaram muitos terem os desempenhos que tens!