19.2.10

Pára&Comando



Joaquim AdelinoMário Lima

Em Angola, na Guerra do Ultramar, dois jovens, em anos diferentes, embrenhavam-se nas matas, um saltando de pára-quedas, outro no terreno. Em qualquer local poderia estar a morte. Ao pequeno ruído um frémito corria-lhes pelo corpo, sinal de perigo ou um simples rastejar de uma serpente ou animal da floresta? Avançavam cautelosamente e, passo a passo, aproximavam-se do objectivo.

Para uns o encontro era inevitável com o IN, para outros não passavam de sinais pacíficos da floresta.

A guerra acabou, os jovens voltaram para as suas origens, a terra lusitana. O Pára porque tinha chegado o fim da sua comissão, o "Comando" porque uma guerra civil assim o obrigou.

Correram os anos. Já mais amadurecidos, esses outrora jovens que calcorreavam as matas de Angola com as sua botas cardadas, enfiaram ténis e passaram a calcorrear as estradas de Portugal em corridas de lazer.

Quis o destino que, um dia, se encontrassem na mesma equipa. Nada sabiam um do outro dos tempos idos e, ano após ano, correram as mesmas provas, lado a lado, sem se conhecerem na realidade.

Até que surgiu um blogue que o "Comando" fez questão de comentar escudando-se num nick já há muito conhecido na net. O blogue era de um «Pára que não para», era afinal daquele amigo que há tantos anos corria junto a ele. E o "Comando" leu a história desse homem, e passou a conhecê-lo. Afinal havia uma história para contar, tinham muito em comum, ambos tinham estado na mesma terra, na mesma guerra. Até a música do hino que os embalou, ao Pára durante a comissão de paraquedista, ao outro durante o curso de Comandos, era o mesmo, o hino dos «Boinas Verdes» (The Green Berets), curiosamente a boina dos Comandos nunca foi verde, foi inicialmente castanha e depois vermelha.

Agora o Pára e o "Comando" irão partir juntos para outras aventuras, para uma "guerra" mais saudável do que aquela por onde andaram em terras africanas. Novos desafios, as matas serão diferentes, os objectivos também. Já não haverá o tal arrepio de se saber se uma bala traiçoeira lhes acabaria com a vida, o arrepio agora é o de cortar a meta por mais um desafio vencido.

O Pára&Comando irá até Terras de Sicó, Almourol, Geira Romana, e tantas outras provas se obstáculos intransponíveis não lhes surgirem pelo caminho.

O Pára&Comando veio para ficar, até o dia, como quando jovens fizeram com as botas, encostarão os ténis, olharão pela janela e, com um sorriso nos lábios, recordarão o passado feito presente!

Para ti Amigo Joaquim Adelino vai aquele Abraço!

Botas Tropa
As minhas botas da tropa - Cabinda75



A música que estão a ouvir, a primeira é o "Hino dos Páras" e a segunda o "Hino dos Comandos"

Para o Hugo, o meu obrigado pelas fotos enviadas do Pai!

14 comentários:

Fábio Pio Dias disse...

Belo tributo a uma amizade duradoura e linda de ver fora e dentro do asfalto! Como diz a música ter amigos é fortuna...

Abraço para os dois tropas especiais, que apesar da rivalidade que sempre houve entre elas, não conseguiu demover uma amizade!

Vitor Veloso disse...

Amigo Mário,
Que bela afeição pelo amigo Joaquim, muito gratificante estar por perto de dois excelentes indivíduos!!
Camaradagem, companheirismo, cumplicidade, dedicação...continuem assim que eu tenho muito orgulho em correr ao vosso lado ate vocês decidirem encostar os ténis, assim que dure uns anos longínquos!
Próxima corrida juntos "Trilhos de Almourol", já falta pouco tempo para o reencontro.

Grande abraço

Vitor Veloso

joaquim adelino disse...

Pois é, a vida tem destas coisas, longe de mim pensar em surpresas destas. O que vale é que eu me reforcei com um PaceMaker e daqueles fortes. Mas fiquei seriamente emocionado, pela história que isto encerra e o seu enquadramento actual, por mim os caminhos que se estão a abrir só se encerrarão quando de todo não for fisicamente posível continuar. E não vamos estar sozinhos.
Do coração te agradeço esta paciência que tiveste em desenterrar o nosso passado (que não nos envergonha) inevitável e imposto naquela época, que belos tempos e belas recordações.
Um abraço.

Joaquim Ferreira disse...

Resta dar os Parabéns aos dois intervenientes nesta História de Amizade, já que a mesma só é possível pela sua forma CORRETA de SER e ESTAR na vida.

Na mesma Equipa, ou em Equipas "opostas", a AMIZADE sairá sempre reforçada!

Mário, além da Crónica, também a Foto das Botas, está EXCELENTE!

Boa Prova para os dois em Almourol, a que eu chamarei de "Trilhos da Amizade" !

Um Abraço e BOM "Trilho" !

Anónimo disse...

Olá, amigo Mário!
Parabéns pela forma com que tão bem descreve essa amizade que perdura, fortalecida com esse outro "mundo" que é a corrida.
No qual também tive a oportunidade e o prazer em conhecê-lo.

É uma linda homenagem a dois valentes amigos, certamente com algumas histórias para contar.

Bem hajam, PÁRA&COMANDO!
Grande abraço,
Hugo Adelino.

Susana disse...

Muito bonita a sua postagem. Deixou-me com um sorriso de orelha a orelha. E não foi só a mim eheheh!!!
VIVA a AMIZADE!
PARABÉNS ao PÁRA E COMANDO

Amigos Vale Silêncio disse...

Um homem sem historia e sem amigos é como um edifício sem paredes,um homem com orgulho no seu passado e com amigos é acima de tudo um castelo seguro e recordado por muitos anos.
Longe vai o tempo em que os homens não choravam nem demonstravam emoções, nos nossos dias demonstrar que gostamos dos nossos amigos e quanto eles são importantes nas nossas vidas deve ser motivo de orgulho, porque eles realmente estão presentes nas nossas vidas e mesmo sem morarem ao nosso lado estão sempre presentes.

Fernando Andrade. disse...

Bonito texto amigo Mário.
Parabéns. Abraço.
FA

luis mota disse...

Olá Amigo Mário!
Bonitas memórias as que partilha aqui connosco. Apesar de terem sido momentos difíceis são recordações muito especiais para vós.
Grande abraço para o Joaquim e para o Mário e que continuem por muitos anos a conviver e recordar com “emoção” os tempos vividos.
Luís Mota

JOSÉ LOPES disse...

Olá Mário

Um bonito texto que retrata uma vivência passada,que nunca esquecerás.

A guerra do ultramar marcou muito a nossa geração.

É engraçado que passados tantos anos venhas a descobrir, um parceiro que andou pelos mesmos "caminhos" lá fora.

Caminhando juntos por essas estradas e trilhos do País e não conhecendo o passado militar um do outro.

Agora com esse conhecimento a união Pára/Comando ficará mais solidificada para enfrentar os desafios futuros.(corridas/raides)


As fotos são uma ideia original

Continuação de bons treinos

Com os cumps
J.Lopes

António Almeida disse...

Olá Mário
dou-te os parabéns, pela homenagem e pela qualidade do texto, muito bom mesmo, aliás em linha com o teu excelente blog.
Abraço.

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Muito bonito Mário. Gostei de ler e de saber. Atrás de um rosto há um coração e uma história, e muitas vezes vale a pena conhecer, nem que seja assim, um bocadinho só...

Um beijinho e até à próxima corrida (Atlântico?)

Ana Pereira

Sérgio O. Sá disse...

Nestas coisas (da NET) ainda não tenho suficiente treino. Por isso, e por descuido quanto à dica de Mario Lima sobre este blogue, só agora aqui chego.
Também não me passara pela mente que um dia haveria de entrar em contacto com os camaradas Joaquim Adelino e Mário Lima, mas isso aconteceu. Com o primeiro, a propósito das suas descidas às matas do norte de Angola, que, antes dele, já eu havia calcorreado. Com o segundo, por causa dos seus CANTORES DE INTERVENÇÃO, onde acabei por ir parar...
A ambos devo os favores que se dignaram prestar-me, de que ainda não me esqueci.
Não fui tropa especial, mas dei o melhor que pude e soube na especialidade que me coube.
Não há dúvidas de que o mundo já era pequeno e com o contributo da NET mais pequeno se torna. E eu, que ainda não tive o grato prazer de conhecer pessoalmente estes dois Amigos, espero que isso possa acontecer qualquer dia.
Entretanto, com o espírito e a perseverança que nos vai animando, continuemos a NÃO PARAR, A COMANDAR e, Já agora, a POETAR.
Cordiais saudações.
Sérgio O. Sá

joaquim adelino disse...

(Mário permite-me que envio por aqui uma mensagem a este amigo que um dia teve a amabilidade de se meter comigo, sobre uma coisa que temos em comum, a Guerra de Angola):
Obrigado amigo Sérgio pela amabilidade das suas palavras. O percurso das nossas vidas quis que ficassem marcadas por muitas coisas em comum, principalmente nos palcos da guerra, ela trouxe-nos coisas feias e também bonitas que nos enchem de recordações que jamais esqueceremos. Espero também um encontrá-lo e dar-lhe um abraço e conversar-mos um pouco sobre daquilo que podemos partilhar.
Um abraço e até sempre.
Joaquim Adelino.