30.9.10

Adeus Amigo





  Fitei-o. Com a mão na cara, cofiando a barba de alguns dias, o meu amigo bebia o café com o olhar perdido no horizonte. Naquele café, onde se mirava a encosta sulcada de casario, ouvi-o durante anos.

 Casara relativamente cedo. Casara por amor. Adorava a mulher acima de tudo. Os dois lutaram por uma vida que lhes fizesse esquecer as amarguras do passado. Vieram os filhos e a vida foi, a pouco e pouco, mudando.

 Chegado a casa, depois de um dia de trabalho, ouvia as lamúrias da mulher, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre a vida. E ele queria era um momento a sós com ela. Queria poder amá-la até exaustão, no carro, na cama, na banheira, fosse em que lugar fosse. Sem tabus, sem leis.

 Deitavam-se, e a conversa continuava. Ele bem procurava excitá-la mas nada! Cansada ela virava-lhe as costas e ele fazia amor com o vazio.

 De vez em quando fazia movimentos, sabendo que ela ainda estava semi-acordada, para que ela se voltasse e fizesse amor com ele, mas o corpo não se voltava, o corpo não bulia e ele fazia amor com o movimento.

 No banheiro, enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo, excitado, fazia amor com a mão.

 Quando, após semanas, ela lá se lembrava que havia outras coisas para além de tachos e panelas, de luzes apagadas, ele fazia amor com o escuro.

 No carro quando ia com ela e a olhava, desejoso de fazer amor, fazia amor com o pensamento.

 Isto durante anos. Muitas vezes o meu amigo me confessou que, quando ia de carro, a vontade que tinha era guinar o volante, acabar com tudo, acabar com a vida.

 Mas pensava essencialmente nos filhos e na mulher que nunca deixou de amar.

 Abria-me os seus sentimentos, calava-se e eu respeitava os seus silêncios. Ele não queria conselhos, queria alguém que o ouvisse!...



 … Um dia, sozinho, vai até ao penedo onde me dizia que costumava ir, ouvir as ondas, ouvir o bramido, ouvir o rugido do mar. Ali ficava entregue aos seus pensamentos e pensar se a vida assim valia ser vivida.

 Olhou o azul profundo. Aqui e ali, ondas iam e vinham, gotículas de espuma batiam-lhe mansamente no rosto, num gesto de carinho, numa entrega total.

 Despiu-se, em pleno dia, de braços abertos atirou-se àquelas águas e, pela última vez fez amor… com a Morte!

28.9.10

Partir e Chegar

Meia-Maratona de Portugal


                                                      Parti

                                                      Cheguei

                                                      Muitos amigos

                                                      Encontrei.



Foto: José Carlos Melo


Está tudo dito!



Até Alqueva

21.9.10

15 km de Benavente

Como o tinha prometido, em 2009, voltei de novo a Benavente para fazer os seus 15 km. Levava a t-shirt que tinha recebido em 1992, a minha primeira t-shirt desta prova o que demonstra que passados tantos anos ainda lá volte ano após ano, excepto em alturas que estive lesionado, com agrado.


Chegado, dou logo com rostos conhecidos, o Brito e a Otília que, juntamente com a “sua” CLAC, iriam participar nesta prova (digo que iriam participar pois há quem vá até às provas e não participe, vão dar a conhecer somente as suas provas, o que não foi o caso).

Desta vez não haviam as tais "banquinhas" com gente em trajes regionais a venderem produtos ecológicos, livros e discos de vinil como aconteceu no ano passado, mas esteve presente, como madrinha da prova, Manuela Machado, grande valor do atletismo nacional, que participou na caminhada.

Foi nesta prova que voltei ao convívio do meu CCD de Loures, donde estive dois anos ausente devido a lesão. Mais uma vez ali estavam os meus companheiros de corrida de há tantos anos, assim como o Joaquim Adelino, o “Pára que não pára”. Vamos envelhecendo juntos.

Muito calor, uma prova em que aproveitei bem os chuveiros pelo caminho para me refrescar, água sempre presente para saciar a sede que se faz sentir e um voltar a olhar a planície ribatejana. Como já faço esta prova há tantos anos, já sirvo de cicerone para quem lá vai pela primeira vez e há sempre um conselho a dar, ou uma forcinha para não parar ou desistir. Ainda vi o amigo Vítor Moreira passar por mim por volta dos 10 km, tentei acompanhá-lo mas, antes que desse o estouro, deixei-me ficar, a experiência, nestes casos, ajuda muito.

Embora tivesse acabado um pouco cansado, fiz melhor que o ano passado, 1h16’55’’ (1h19’59’’).

Mais uma peça, desta vez em vidro, faz parte da minha já extensa colecção desta prova.


Um banho retemperador, e há que ir até às tasquinhas para de novo comer uma caldeirada que, acompanhada com uma sangria, faz as delícias gastronómicas de uma terra que bem nos recebe.


Pró ano, lá estarei de novo se nada houver que me impeça de voltar.

Para o clube organizador (CUAB), aquele abraço.

12.9.10

Os Louros da Vitória

Chego a casa cansado. Tinha corrido a meia-maratona de S. João das Lampas e estava “estourado”. Despejo tudo o que tinha na mochila. Algo cai no chão e ali fica, seria mais um papel a anunciar mais uma corrida numa localidade qualquer. Teria tempo para o ver.

Dormi mal tal era o cansaço. Sonhava como descrever esta prova. Na 4ª feira tinha feito cerca de 17 km no Parque da Paz com o Vítor e o Filipe. Na Sexta quase uma hora no areal da Caparica (a maré estava cheia, teve que ser na areia solta).

Vieram-me as “imagens” da prova. O convívio inicial com todos os companheiros de corridas, a presença inesperada da Susana (foi bom rever-te rapariga), futura mamã, já com 5 meses de gestação, o Joaquim, a família Veloso, Almeida, o novo Tandur Filipe Fidalgo, o grande amigo Augusto Cruz, um grande campeão, o Jorge Branco e o tio Egas, o Carlos Coelho, o Carlos Lopes, o Luís (Tigre) que corri com ele durante uns km na Geira Romana e tantos outros.

Um cumprimento especial ao Fernando Andrade, director da prova, onde lhe mostro a t-shirt recebida na única vez que tinha corrido esta prova, a 18ª, no longínquo dia 17 de Setembro de 1994 com o tempo de 1h28’. Achei a prova tão “dura” para início de época que nunca mais a fiz.

Mas tinha prometido este ano lá voltar para desta forma homenagear o Fernando e a equipa que, durante tantos anos, mantêm esta prova que já vai na 34ª edição.


Eu com o Joaquim no início. Imagem retirada do vídeo do blogue Último Km

De novo o subir e o descer todas aquelas rampas. O desespero, o cansaço e se não fosse o incentivo recebido da Isabel, Ruth e Susana (eram mulheres a mais para dar uma de fraco) tinha desistido ao 13º km. Estavam já chegar os primeiros e a mim ainda me faltavam 8 km.

Aos 10 km, 53’, aos 13 km, 1h 15’, depois foi o "correr" para trás. Passam por mim os amigos da "Lebres do Sado", ainda os acompanho por uns tempos. Depois aparece a Henriqueta Solipa mais o Carlos, vou com eles mas já não dou mais, começo de novo a andar o que fiz para aí umas vinte vezes.

Diz uma simpática senhora: «Este é que faz bem, vai com calma pois ganha o mesmo». Agradeci-lhe dizendo que era a voz da sabedoria que assim falava, mas eu é que já não podia mais. Mas que somo de energia se apodera de nós? Quando pensamos que já não podemos mais, vamos em frente.

Olho para trás e quem vejo? O amigo Pára. Eu a tentar ter uma distância entre mim e ele e ali estava mais uma vez o Joaquim como sucedera em Almourol. Tento de novo ganhar distância mas a ultrapassagem era irreversível. Disse-lhe: «Vai Joaquim que na descida já te apanho». Mas eram só subidas e lá se foi o Joaquim.

Terminei a prova em 2h08’04’’ (tempo oficial), estourado, suado e com pensamentos negativos relativamente à prova tal como sucedera em 1994.


Um banho refrescante e o convívio final com a família Almeida, a do Veloso, o Filipe, o Joaquim e a Susana e o José Pereira...

... Viro-me mais uma vez na cama procurando dormir. Na cabeça vai-se alinhavando os escritos para este tema. As palavras não eram estas que aqui escrevo. Eram outras bem diferentes.

Levanto-me. Vou até à mochila pois lembrei-me que ainda guardava mais umas coisas na bolsa. Olho para o papel que estava no chão. Estranhei ver duas folhas de louro. Peguei nele e leio:


Amigo Fernando Andrade, saber que os louros da vitória, para ti e para a tua equipa, são para todos aqueles que concluíram a vossa prova, faz-me dizer que para o próximo ano conta comigo, nem que seja o último, voltarei a S. João das Lampas.

8.9.10

Festa é Festa - Avante

Que dizer de uma prova que a corro desde 1992?

Que já corri pelo menos com três distâncias diferentes (10, 10.5 e 14 km).

Que a prova já terminou no Campo do Amora, com longas filas a serem formadas antes de terminar.

Que já a corri com vários tipos de clima (apareci uma vez numa foto do “Jornal da Festa” a tomar banho de mangueira do carro dos bombeiros mesmo a chover).

Que o pessoal nunca está satisfeito e critica sempre.

Que o Filipe Fidalgo, que fora pai no dia anterior, ali estava, no tiro de partida, felicíssimo (Parabéns Amigo).

Que continuam a haver os xicos-espertos que não fazem a prova toda como mais uma vez vi nesta prova e foi mesmo há minha frente onde, pouco antes do retorno, um pseudo-corredor ia com a parte da frente da camisola metida pela cabeça para não se ver o nº e depois de cortar caminho colocou-a para baixo.

Que o trajecto foi alterado, penso que para melhor, (embora houvesse um afunilamento o que nos obrigou a andar, mas todo o mal fosse esse) sendo corrido junto ao rio.

Que é uma prova que se convencionou ser a do arranque de uma nova época e ano após ano assim o é.

Que o cronómetro registou, para os 10,5 km, o tempo de 53'27" e que até fiquei indiferente por tão fraca prestação.

Que a organização está de Parabéns pois o pouco que dá já é muito para muitos que nem esse pouco merecem.

Que mais uma vez eu estive lá, junto aos meus amigos de muitos anos e dos amigos, que sendo de há pouco, já fazem parte desta “família” imensa que somos todos nós.

Que é sempre bom voltar, sinal que estamos cá, sinal que continuaremos por cá sempre com o espírito que nos une… o da amizade!

Para todos os amigos que lá estiveram… Aquele abraço e Viva a Festa do Avante.