25.7.12

Ultra Maratona Atlântica - 2012



Uma UMA que tinha todas as condições para ser a melhor UMA das duas que já tinha feito acabou por ser a pior das três. Não devido às dificuldades do terreno pois desta vez o areal estava ótimo para correr, exceto nos primeiros 4/5 km que ainda se apanhou a maré a vazar, mas por outros pormenores que fazem a diferença em termos de organização dos anos anteriores.

Vamos por partes

Tendo estado a trabalhar em horário incómodo e à falta de preparação para uma aventura destas, sabia que iria sofrer, afinal o que já me tinha acontecido nas provas anteriores. O azar é que no sábado mais uma vez uma dor se alojou na zona lombar que me impedia de andar. Felizmente encontrei um “spray” que, colocado no sábado, mais um “Voltaren”, no domingo a dor já era.

Na companhia da Analice e Vitor Veloso rumo a Setúbal onde se apanhou o “catamaran” mas sem em antes haver um congestionamento nas máquinas automáticas o que originou um atraso na saída do barco. Nada de mais!

Como sempre muitos amigos presentes e alguns ‘novatos’ nesta prova tentando saber o que os mais ‘velhos’ lhes podiam aconselhar para uma prova sem grandes sobressaltos. Como não há UMA’s iguais dá-se as informações necessárias, entre elas a da hidratação, a mais importante de todas.

Viagem sem sobressalto até Melides onde nos é entregue o dorsal e uma t-shirt, além do litro e meio de água, uma maçã, uma barra energética e dois cubos de marmelada. Aí verificámos que a t-shirt, laranja da ASICS, não tinha nenhuma menção sobre a prova mas, como os elementos da organização tinham uma toda XPTO, pensamos que se calhar nos dariam uma igual no final. A prova atrasou-se ligeiramente aguardando o ‘padrinho’ da prova, Carlos Lopes, que não se dignou em comparecer.

Prova começada, a adrenalina em alta, e lá vamos pelo areal. Como o referi os primeiros km foram feitos em areia relativamente solta com um entrar mesmo numa área aos 5,5km local de controlo em que já não consegui correr. Fui a passo, mas passada essa zona tudo normalizou. Ia comigo e foi quase até ao fim o Vítor Veloso. Disse que queria fazer a prova comigo e assim foi. Obrigado Vítor!

Fomos num bom ritmo, entre 6’30’’ e 7’15’’ consoante os pontos mais sensíveis do terreno. Verifiquei que o areal tem duas tonalidades; um mais “acastanhado” e outro mais “acinzentado”. Pisando o “acastanhado” o pé afunda-se ao contrário do "acinzentado" que, sendo mais compacto, os pés corriam sem problema algum. Procurei fazer isso mas claro que não evitava o ‘afundanço’ de vez em quando. Íamos para um nosso recorde da prova estrondoso.

Aos 26 km uma dor terrível nos ombros impediu-me de manter o ritmo. O peso do camelbak estava a fazer ‘mossa’. Nos anos anteriores tinha levado a mesma quantidade de água (a minha limonada) 1,5L. Não tive nenhum problema, desta vez algo não estava a correr bem. Procurei ajustar as cintas mas a dor já lá estava. Estava desesperado e o Vítor perguntou-me se iria desistir, claro que não! Iria até ao fim!

Paragem aos 28,5km, na Comporta, onde me foram dadas duas garrafas de 0,5 litro (houve quem tivesse recebido duas de 33cl, mas eu tenho, agora, a certeza que as minhas eram de 0,5 litro). Perguntei à organização se havia um “spray” para me aliviar as dores. Não havia mas uma massagista que lá estava prontificou-se a massajar as zonas doridas. Obrigado, melhorei um pouco, as dores foram atenuadas mas permanecerem até ao final.

O ano passado foi aqui que comi um bocado de pão e uma banana e caiu-me muito bem. Fiz o mesmo, mas desta vez caiu-me muito mal. Como disse não há duas UMA’s iguais e o que num ano foi bom neste foi péssimo. Mudei de meias. Estivemos 15’ neste local. Voltámos à corrida. Se o ano anterior foi aqui que apareceu a tal ‘parede’ de vento, agora o vento soprava, moderado mas quente. Entrava pela boca e secava tudo. Comecei a ter vómitos devido ao que tinha comido. Parei para o fazer, não o consegui mas deu a volta e melhorei. Logo a seguir cólicas e o Vítor à frente sempre a tentar marcar o ritmo, mas já não podia mais. Comecei a andar, e ele comigo, e os últimos 13 km foram feitos a andar.

O Vítor também já não estava bem, pois há muito que não fazia tamanha distância, mas a juventude tudo aguenta.

Os km foram palmilhados em 10’/11’ cada. Mas sabia que ia chegar ao fim. Colocava a mão debaixo do ‘camelbak’ para aliviar os ombros. Á nossa frente muitos companheiros pareciam ‘zombies’, alguns já sem água (o Vítor teve que ceder alguma da dele), um caído no chão, com cãibras, aguardava o transporte para a meta. Outros passavam por nós já sentados nas moto4. Dos 390 à partida desistiram 25.

Levei uma das garrafas que me deram aos 28,5 km, vazia, quase 10km até ao controlo dos 38,5. No entanto pelo areal eram só garrafas, gel e outro lixo que tais. É o povo que temos! Porco q.b..

Finalmente o insuflável, a emoção subia consoante me aproximava da meta. O pessoal batendo palmas à nossa passagem. Dei a um miúdo que nos acompanhou a barra energética que me tinham dado. Eu só queria chegar ao fim e beber uma Coca-Cola bem fresquinha, como no 1º ano que participei (no 2º estava quente).

43km e ainda faltavam aí uns 400 metros (foram 430 metros a mais). O Vítor para desentorpecer as pernas, vai-se embora (Obrigado mais uma vez Vítor), guardo-me para os 300 metros finais. E, com um sorriso nos lábios, ultrapasso a Meta. Tinha vencido a UMA mais uma vez, 6h08’03’’ (tempo oficial) depois da partida. Tinha batido o meu recorde anterior em cerca de 42’.


No final. Foto: José Carlos Melo

Depois foi o fracasso. Não houve mais ‘t-shirts’, fiquei (ficamos) com uma ‘laranjinha’ sem o 'logo' da prova. Pedi uma Coca-Cola e não havia. Bebi um “Guaraná” que estava quente, foi o fim da ‘picada’. Vomitei e senti-me mal disposto. Estava cansado, estoirado e tudo aquilo era irreal. Mais companheiros iam chegando, derreados. O calor sufocante tinha feito das suas.

Ganhei forças e fui com o Vítor dar um mergulho para aliviar as dores dos ombros, o cansaço do corpo e que tão bem me soube o banho.

Digo à Analice que se não houvesse prémio para ela, iríamos embora. Não iria esperar pelo lanche (que pelos vistos foi uma ‘barraca’ tremenda).

Eu, Analice e Vítor embarcámos no “catamaran” das 17h. Fiz a trilogia que me propus fazer destes eventos onde agora estou a participar. Nunca se deve dizer nunca, mas penso que esta foi a minha última participação na UMA.

Para os que correm aquilo em três/quatro horas é sinal de muita boa preparação, todos os outros é para sofrer. Capacidade de sofrimento tenho, mas não é para isso que aqui ando. Com horários incómodos, sem a preparação adequada fazer 43 km em areia é uma grande aventura e o meu tempo de grande aventureiro já passou!

5 comentários:

Jorge Branco disse...

Grande texto!
Grande prova!
Grande campeao!
(Ainda sonho com a UMA mas acho que nunca lá vou chegar! Basta o calor para me dar cabo do sonho! E ainda há tudo resto!)
Abraço.

mario mira disse...

Pois as bebidas quentes foram um problema a organizaçao quer mais pessoal a correr mas as condiçoes sao as mesmas para 100,200 ou 400 continuam a ser 2 arcas frigorificas
as camisolas tambem foi uma falha e tambem nao oferecerem um brinde no final nao fica nada bem estamos a falar de uma prova de 20 euros de inscriçao

António Almeida disse...

Amigo
parabéns por mais UMA, espero que não a tua última, apesar de tudo tirar 42 minutos ao teu tempo de 2011 foi bem bom.
Gostei de ler que é sobre a "hidratação" a mais importante das dicas que se pode dar aos novatos, de facto (não fato como vejo agora escrito, esta está fora do contexto ou talvez não...) também para mim esse aspecto é sem dúvida aquele que tem funcionado para mim como um acréscimo ao desafio já por si bem duro de palmilhar 43 quilómetros em piso de areia mesmo que lisinha como este ano e sobre forte calor (como este ano).
Quanto ao resto lamento os erros que terão sido cometidos mas esta organização por tudo aquilo que já fez merece que acreditemos que em 2013 vai melhorar.
Continuo a achar que esta prova tem tudo para ser "a" prova das que por cá se realizam, continuo a achar que continua a ser para quem procura algo bem diferente do que por cá vai havendo, espero que assim continue e que não a transformem numa prova igual a outras, espero lá ter-te em 2013.
As minhas desculpas por não ter ficado mas a vontade de regressar era forte.
Grande abraço.

.JOSÉ LOPES disse...

Parabéns novamente (agora neste local) pela conclusão de tão dura prova.
O texto além de servir para descrever a tua prova servirá tb como aprendizagem para quem quiser correr a UMA no futuro.

Do que já li sobre esta prova em vários "sítios " da Internet não há duas provas iguais.
Tipo de Areia-Calor-Vento.
É tb uma prova que quem corre devagar(como eu) tem de estar bem apetrechado com sólidos e líquidos para não lhe acontecer nada de grave.

" O tempo de aventureiro já passou" não será cada prova que corremos uma "aventura" umas mais duras do que outras, seja uma maratona ou uma UMA :):)

Boas corridas
Cumps
J.Lopes

Anónimo disse...

O ano passado encontrei o João Hébil na Maratona do Porto e, sendo ele um filho da terra (Setúbal) comentei com ele a minha ida à UMA. Curiosamente o ano passado e este ano ele não foi lá, tendo-o feito em anos anteriores. Mas, avisou-me que em todas que fez nunca "aquilo" foi igual, isto é, que para além do vento que possa ser mais ou menos forte, mais calor menos calor, a areia tem um peso fundamental, pois pode estar mais dura ou mais mole tudo dependendo das marés e que num determinado ano pode ser uma coisa e na mesma zona no ano seguinte já pode estar diferente. Também me chamou a atenção para as praias pois que normalmente a areia está sempre mais removida o que acaba por ser para o atleta um "pesadelo" acrescido.
Afinal ele tem razão.
Um abraço.
Fernando Paiva