Confesso que gosto da malta que organiza estas provas de trilhos. Já o disse aqui e volto a reafirmar. É necessário espírito de aventura para andar em serras e montanhas procurando caminhos e escolher os percursos por onde irá desenrolar a prova. Depois cabe a nós ‘trailianos’ terminá-la ou não. Tudo depende do nosso espírito de sacrifício.
Como penso que não tenho preparação adequada para fazer 50 km resolvi participar nos mini-trilhos com cerca de 20 km.
Acredito que há alturas que tudo pode correr mal a uma Organização. Por mais que tentem não conseguem acudir a todos os ‘fogos’ quando os mesmos estão distantes uns dos outros e o pessoal é pouco. Mas não são só os da Organização que falham, há corredores que de corredores têm muito pouco, ou eu sou um lírico quando acredito nas pessoas e penso que todas as pessoas deveriam ser leais em competição.
É inconcebível o que aconteceu no domingo. Aquilo é uma falta de respeito para quem faz a prova na sua totalidade. Como conhecedores da zona, cortam caminho e aparecem ao lado de quem vai à frente vindos do nada. Sei que isso aconteceu no Ultra Trail.
Um dos fatores que me dei conta do que estava a acontecer foi num local em que todos nós paramos pois não sabíamos por onde ir.
Aqui parados sem saber que caminho seguir. Foto:Mário Lima
Iríamos de novo em direção à Pedreira? Havia uma seta que indiciava isso, mas estaria correta? Por ali já tínhamos passado na ida. Para baixo não podia ser pois até à meta seriam perto de 3 km e ainda nos faltavam uns seis para fazer os 20 km. A maioria encaminhou-se para uma estrada lateral, disse que não devia ser por ali pois não haviam fitas, mas alguns sabiam que ali ia ter ao Castelo e seguiram caminho. Outros vi, que escapuliram pela encosta abaixo em direção à meta sem irem ao Castelo de Sesimbra. Tento ligar ao Eduardo mas não havia rede na zona. E neste impasse chega a Margarida que me diz que tínhamos que ir de novo à Pedreira e apanhar o trilho para o castelo. Foram chamados os que iam pelo caminho errado, uns vieram para trás e tomámos o rumo certo. Nesse momento sucedeu algo inexplicável, que só pode dizer que há momentos que acontecem porque têm que acontecer e não há explicação plausível. Quando começamos a subir ouço uma voz a perguntar quem tinha água. Depois ouço: «Vou pedir aqui ao Mário». Olho para trás e vejo o grande Amigo Luís Mota. Não tinha havido o abastecimento aos 40 km e ele estava sequioso. Bebeu da minha ‘limonada’ caseira, foi um prazer ver este Amigo subir naquele seu ritmo e cada vez era mais um pontinho no horizonte. Parabéns Luís pelo teu 1º lugar, és um grande Campeão!
O Luís Mota mesmo no alto da subida, mal se vê pois tem equipamento escuro. Foto:Mário Lima
Depois encontramos locais sem fitas. Os caminheiros diziam que era por ali, e o nosso grupo por ali foi. Ouvimos pessoal em cima e era outro grupo que ia na estrada enquanto nós íamos por silvas e matagais. Vejo o Carlos Fonseca com fitas na mão. Pelo seu ar verifiquei que algo mais tinha acontecido. Alguém tinha retirado as fitas. Assim não há Organização que aguente. Foi vista uma senhora a retirar fitas e colocá-las num poste de iluminação. Outra retirou as fitas já a seguir ao Castelo pois disse que não tinha dado autorização para que a prova passasse pelos terrenos dela (já estava na meta quando isso foi contado pelo Renato Cruz ao Eduardo. Lá vai ele serra acima tentar resolver o problema).
Haviam pontos de controlo nos abastecimentos, aos que prevaricaram e não fizeram todo o percurso, que sejam retirados das classificações e que o ‘Mundo da Corrida’ não os aceite em futuras provas. São batoteiros, não respeitaram os companheiros que fizeram a prova toda, com muito suor e sangue pois havia quem estivesse todo esfolado (a Analice é prova disso) por terem caído em locais que, se calhar, os tais batoteiros não passaram.
A prova é dura. Mesmo os mini trilhos foram duros. Terreno com declive acentuado, onde os ténis não conseguiam agarrar o terreno tão deslizante este estava. E não havia nada onde segurar a não serem umas silvas que era o que havia para não ir por ali abaixo. Ali faziam falta umas cordas.
Começo da descida perigosa, mas vejam a maravilha do local. Foto:Mário Lima
Tive esfoladelas e arranhões, três aparatosas quedas nesse trilho, depois saibro solto…
Esta foto tirei-a, estava no chão, depois de mais uma queda. Foto:Mário Lima
… e uma subida de puro montanhismo. Para quem diz que há uma ‘parede’ na prova do Guincho veja esta imagem e tire as conclusões devidas. Aquilo ao pé disto não é nada.
Subir de 'gatas'. Foto:Mário Lima
A caminho do Castelo, num trilho estreito, passaram tipos de BTT que, à velocidade que iam, se têm o azar de bater num de nós era certo e sabido que alguém estaria no hospital a esta hora. Passaram na gáspea e depois pararam num largo no fundo do trilho. Vamos lá perceber a pressa que estes fulanos tinham para nos colocarem em risco.
Foi na companhia da Ana Pipio, Eunice Guerreiro e Rosa Maria Afonso que fiz quase a totalidade da prova. Para elas o meu Obrigado pela entreajuda que houve.
Trio Maravilha. Foto:Mário Lima
Relativamente ao que aconteceu no final também é merecedor de reparos. Houve quem da mini tivesse tido direito à placa comemorativa do evento, todos nós que acabámos nessa altura a recebemos (mesmo que se dissesse que lá estava 1º Ultra Trail, foi-nos referido que podíamos levar na mesma), assim como a foto da chegada. A foto foi-nos tirada independentemente de ser da Ultra ou da Mini. Mas sei que nem todos da Mini tiveram a placa (foi-lhes dito que não chegavam para os da Ultra, mas se não chegavam não davam aos da Mini) assim como foi recusada tirarem a foto a quem chegou antes de nós. Está mal!
Há uma coisa que quero aqui realçar, as paisagens maravilhosas! Obrigado a quem nos oferece provas assim. Retificar o que está mal, mas que nunca desanimem. Vejam o vídeo pois correr e descer aqueles trilhos, subir falésias com a máquina fotográfica na mão, requer um grande esforço, mas o meu prazer é enorme em saber que vocês irão gostar das fotos que tirei.