6.10.11

II Trail das Terras do Grande Lago

“A nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez.”


… E teria um dia que acontecer. Pela primeira vez desisti. Custa ter desistido a quatro km do fim, mas sabia que esses últimos km seriam dramáticos pois é um sobe e desce constante e não tinha condições físicas para os vencer.

Ao contrário do ano passado, desta vez não levei a máquina para tirar fotos pelo caminho. Queria fazer a prova sem grandes paragens e levar a camisola de ‘O Mundo da Corrida’ a cortar a meta em melhor tempo que do ano anterior.

Os primeiros km foram vencidos sem grandes problemas, o maior problema era a canícula que se fazia sentir. Um verão outonal que queimava. A limonada que levava no cantil era um chá quente. Não se podia beber. Em todos os abastecimentos fui bebendo e não foi por aí que desisti. Desisti porque não tinha hidratos de carbono, não tinha reservas para enfrentar os km em falta. Desgastei-me e não comi o que deveria comer. Com bananas à disposição, e marmelada que levava não lhes toquei e fui ao limite. No abastecimento onde se encontrva o António Almeida, a Paula Fonseca ainda me fez sorrir com o grito de: "Olha o Mário" e zás, lá vai foto.

À minha frente o Carlos Coelho, atrás o Joaquim Adelino. Foto: Paula Fonseca

Fui com o Joaquim Adelino por vários km. Num fontanário ele encheu o 'camelback' e ali tomámos um 'duche'. Atenuou um pouco os efeitos do intenso calor. Mas o Joaquim neste momento vai adquirindo a forma e seguiu.

Perto do abastecimento dos 22 km. Foto: Espiralphoto

Aos 22 km depois da subida mais íngreme que me lembrava do ano passado, já não podia mais. O Fernando Fonseca incentivou-me: «Vai Mário, és um duro». Encostei-me a uma árvore. Sentado, outro companheiro tinha desistido. Outros já tinham ficado pelo caminho. Mas lembrei-me que tinha feito Melides/Tróia. 43 km em areia, duríssimos e tinha conseguido. Deu-me uma de raiva e segui caminho. O companheiro que estava sentado veio ter comigo e lá fomos os dois. Viria a ficar no abastecimento seguinte.

O meu objetivo era chegar ao fim e mais uma vez não comi nada. Segui até ao abastecimento dos 29 (?). Já só andava, nem tentar correr podia. O sol queimava e eu bebia, bebia… Nesse abastecimento, vejo chegar a última atleta com o Zé Magro o “Atleta vassoura”. Enquanto eles ali ficavam vou caminhando. Encontro o Carlos Coelho. Vejo-o de longe, o corpo bamboleia. Dobra-se e chego ao pé dele. Seguimos os dois. Um casal conhecido, encontro-os parados. O homem já não pode mais e desiste, a companheira segue (viria a perder-se mais tarde). Ouço vozes atrás, ali vinha o Zé Magro. A atleta que vinha com ele, passa por nós em passo rápido, até parecia que eu estava parado. E o Zé fez-nos companhia. Atrás vinha uma carrinha com alguns desistentes. O Fernando Fonseca a apanhar as garrafas deixadas pelo caminho e eu disse que já não podia mais. O Zé sempre incansável a puxar por nós. Passamos os 30 km, o Fernando foi-me buscar uma garrafa de litro e meio e despejei-a pela cabeça abaixo. A meu lado, o Carlos também em queda. Começou a dar-me vómitos e aos 31 km desisti. Pela primeira vez entrei numa carrinha (já tinha entrado mas por lesão aos 29 km nos 50 km da Geira Romana). Vomitei e fiquei melhor mas já nada havia a fazer. Restou-me a consolação de ter sido o último a desistir. O Carlos acabou a prova com o Zé Magro. Dentro da carrinha só pensava numa coisa, beber uma cerveja preta bem fresquinha e, quando a carrinha chegou a Portel, foi o que fiz… E que tão bem ela me soube!



Obrigado Fernando e Zé Magro pelo apoio. A Organização de ‘ O Mundo da Corrida’ esteve impecável.

… E como a frase que abri este tema: "o caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez", pró ano voltarei e irei vencer de novo o Grande Lago!

O Grande Lago. Foto: Mário Lima


Foto do 'template': Paula Fonseca.

Recorte e Montagem: Mário Lima e Nuno Lemos

27.9.11

Meia-Maratona de Portugal

O ano passado tinha ficado com a vontade de não voltar a fazer a Meia-Maratona de Portugal. Não faz sentido, esperar tanto tempo em cima de uma ponte, para corrê-la só em 3 km.

Voltei lá este ano e voltei a ter a sensação de que pró ano lá não voltarei (mas ‘Nunca digas nunca’ já assim o diz o filme de 1983 do James Bond). Sinto que já nada me impele para este tipo de prova. Temos os amigos, temos o Tejo por baixo, temos uma organização impecável, mas é sempre o mesmo. Alcatrão mais alcatrão, muda-se o percurso e é sempre tudo tão igual que incomoda.

Na Ponte com Vitor Veloso, António Almeida e Pedro Ferreira. Foto: Luís Parro

Este ano tive mais uma agravante, percorri a maior arte do percurso com os pés numa lástima. Bolhas de água e de sangue, nos dedos, na planta dos pés que me obrigava a correr com o pé de lado e ninguém consegue correr assim 21 km. Tive que andar, e muito, só porque desistir não faz parte do meu léxico.

Até aqui ainda não ia mal. Foto: Joaquim Adelino

O problema será das meias (já tinha efetuado provas curtas com elas e nada disso aconteceu), não vejo outra razão. Tinha colocado pomada nas zonas de fricção mas de nada valeu.

Com o Carlos Coelho no final. Foto: José Melo

Comecei bem, acabei mal. Agora só me falta recuperar das mazelas e domingo estar pronto para subir e descer no Alqueva. Aí sim, mesmo sofrendo, olho em redor e nada é igual.

Classificações

19.9.11

35ª MM S. João das Lampas

Depois de duas semanas sem treinos, devido a uma lesão no gémeo esquerdo, uma semana de treinos assim-assim mas, conforme tinha delineado há já algum tempo, fiz uma viagem de 300 km de carro, andei ‘perdido’ quase uma hora à ‘procura’ do local de destino e eram 16h20’ quando cheguei. Pelo Fernando Andrade e pela Organização não poderia faltar à 35ª edição da Meia-Maratona de S. João das Lampas.

Tinha um objetivo, entregar a minha t-shirt recebida em 1994 ao Fernando para colocarem no museu da prova pois o ano passado disse-me que faltava essa para completar os 34 anos de edição. Afinal já a tinham mas ficou a intenção da minha parte.

Com a t-shirt de 1994. Foto: Fernando Andrade

Com tão poucos treinos não podia esperar mais do que começar e tentar acabar tal a dureza que esta prova tem. Inicialmente comecei com o Eduardo Santos, que iria fazer um treino até aos 12 km altura que ficaria na passagem por S. João das Lampas. Mas aí pelos 11 km já não podia com uma gata pelo rabo e disse ao Eduardo para se ir embora senão o treino dele seria um fiasco. Pensei fazer o mesmo, desistiria quando passasse pela meta.

Com o Eduardo Santos. Foto: AMMA


Mas o homem põe e deus dispõe. Vi a Estela que ia também em dificuldade e ia abandonar (já tinha previsto isso). Coloquei-me ao lado dela e quando ia desistir disse-lhe que não o fizesse, iríamos os dois até ao fim "custe o que custar". E assim lá fomos os dois.

Com a Estela Gonçalves. Foto: AMMA

Depois passamos a quarteto, enquanto a Estela recuperava eu ‘afundava’. Já não podia mais, estava estourado e comecei a andar mais vezes do que até aí tinha feito.

O quarteto. Foto: AMMA

Alguém dos que assistiam disse que a Estela era a quinta (era nona). E a decisão foi: «Vai Estela, não percas o teu lugar por minha causa». Bem ela não queria ir, e foi com um “não te importas do fundo do coração Mário que me vá?” claro que do fundo do coração não me importo que alguém vá sabendo que se eu não puder, nunca serei empecilho a quem possa ganhar alguma coisa que foi o caso da Estela. Assim aos 16 km deu-se a 'rutura'.

Fui mais um dos quatro, andando e correndo lá fomos mais uns km. Comecei a ganhar forças e pensei em acabar em pleno. Nesse momento já se tinha juntado os amigos José Lopes e João Lima. Depois foi o sprint final, como já o tinha feito em Constância (eu, Estela, Pedro Ferreira e João Lima, nos últimos 500m). Disse ao João, “vamos a isto” e foi o sprint até o cortar da Meta.

o cortar da Meta. Foto: AMMA


Gostei de ver ali o Egas e o Jorge Branco que, como o prometido o ano passado, iria fazer a Meia-Maratona... E fez!... Parabéns Jorge!

Depois de tanta correria, ainda deu para ir para o ‘bailarico’ até às duas da manhã. Sei que um homem não é de ferro mas às vezes parece!


Os meus Parabéns a toda a Organização da 35ª edição da Meia-Maratona de S. João das Lampas!

17.8.11

TNLO - Uma Maravilha

Tudo pronto, camelback com a 'limonada' e frontal, e sigo, com o Vítor Veloso, em direção a Óbidos. Iria correr, pela 1ª vez, um Trail Noturno.

Tinha lido temas dos anos anteriores e pelo auscultado de quem a tinha feito não seria uma prova difícil, o pior estaria reservado para quem iria fazer os 47 km do Ultra Trail. Quando sabemos que não podemos exigir do corpo mais do que este nos pode dar, o melhor é mesmo não abusar e foi o que fiz, 25 km e chega.

A concentração fez-se no recinto designado 'Jogo da Bola' no interior das muralhas.

Com o casal Artur e Estela Gonçalves. Joaquim, Vítor e Melo. Foto: Paulo Pires

Depois dos conselhos habituais (que muitos não prestam atenção) e que me serviram na perfeição para me orientar de noite sem uma única vez me perder, seguimos em corrida até à porta principal de Óbidos local onde seria dada a partida para a UTNLO e TNLO.

Foto: Jorge Serrazina(?)

Frontais ligados e foi uma maravilha. Ora juntas, ora separadas, as luzes eram autênticos pirilampos no escuro da noite. Pena foi que o céu encoberto e uma chuva miudinha tivesse caído durante toda a prova, seria lindo ver a lua cheia refletida na lagoa de Óbidos. Seria a cereja no topo do bolo!

Os 'pirilampos' e o castelo. Foto: Fernando Almeida

Começo com o Joaquim Adelino e o Fernando Silva dos “Amigos Vale Silêncio”, até à subida de uma grande escadaria. A pouco e pouco deixo de os ver (há que aprender a lição, neste tipo de terrenos não podemos olhar muitas vezes para trás, o terreno é desnivelado, com pedra solta, raízes e sem grandes locais para apoio, sujeitos a irmos de ‘carrinho’ ou apanhar um grande trambolhão. A distração é a ‘morte’ do artista, todo cuidado é pouco, mais vale chamar que olhar). De seguida uma subida íngreme que tivemos que a subir agarrando nos arbustos e raízes, local onde se juntaram vários corredores pois só era possível a passagem de um atleta de cada vez (nessa altura olhei para trás e era impressionante a quantidade de frontais que via) e, de seguida, o 1º abastecimento de líquidos.

A subida. Foto: Fernando Almeida

Sigo com o casal Estela e Artur, é sempre bom estar acompanhado pois sozinho é complicado e mais facilmente se perde. Fico abismado quando vejo a placa dos 10 km. Pensava ter deixado há muito os 10 km para trás e eis que ali estava ‘sorrindo’ no escuro. Olho para o relógio 1h13’ de corrida. Tanto tempo para tão poucos km’s. Deixei de ver o casal e sigo sempre de forma a não perder o que estavam à minha frente de vista. Passamos a Lagoa, pontes de madeira, estradões e a chuva sempre a cair. Vou perguntando quando é que se faz a separação das duas provas, ninguém sabia pois o trajeto tinha sido alterado do ano anterior. Pensei para comigo que ainda ia fazer os 47 km sem querer.

Mas isso não aconteceu, perto dos 14 km (?) faz-se a separação. Uma travessia rápida em asfalto, entro de novo no trilho e ouço uma voz conhecida: “Mário”. Olho e vejo a grande amiga Otília. Juntos subimos e descemos, nos momentos de maior cansaço andamos. Em declives mais ‘polidos’, a voz da experiência dizia para irmos pelas folhas e não por ali. Aos 17 km vejo dois companheiros da ‘Fundação VCS’ (Fernando e André). Fiquei admirado de já os ver ali, tinham corrido em bom ritmo mas as forças faltaram-lhes e a custo acabaram.

Avistámos o Castelo: "Vamos Otília já falta pouco!" E aceleramos nas descidas e andamos nas subidas e o Castelo sempre longe. Ouvia-se uma buzina em alta berraria, era a Dina Tartaruga. É sempre bom ver um rosto conhecido e as últimas indicações: “É só subir por ali e está acabado”. Começa a subida pela parte oeste das muralhas. Vou agarrando as cordas para melhor subir. A Otília, à minha frente, avança decidida, ouvimos uma voz vinda do escuro: “Falta pouco, agora é acabar em beleza” e a beleza era o último esforço. Passamos a porta da traição em corrida e o abraço final.

Foto: Paula Fonseca

Tínhamos terminado, tínhamos feito o assalto ao Castelo e em vez de archeiros encontramos bons amigos. Uma mesa repleta de iguarias, uma sopa que caiu que nem a ginja de Óbidos, um chá quentinho. O arroz doce, feito pela Leonor, esposa do Orlando Duarte (promessa de anos), estava divinal. Obrigado e conta muitos Orlando!

Paulo Pires, Leonor e Orlando. Foto: Paulo Pires

Um banho retemperador e de novo até ao Castelo aguardar o Vítor que estava a fazer os 47 km. Fui até às ameias onde se encontrava a família Almeida. Ali via, ao longe, no escuro, as luzinhas de quem ainda vinha a caminho. Os corredores, quase sempre isolados ou a dois, iam chegando.

Tinha acabado com a Otília e enquanto ela esperava o marido, o Brito, eu aguardava o Vítor e chegaram os dois juntos. Coincidência do destino!

Dei os Parabéns ao Serrazina pela belíssima prova e ele, como não quer a coisa, a convidar-me para o próximo ano fazer a Ultra. Obrigado Serrazina, prefiro fazer 25 km sabendo que podia fazer mais 5 do que fazer 47 km de rastos. Foi melhor assim, quem correu o que teve para correr a mais não é obrigado! O meu tempo já passou!

Parabéns a toda a Organização. Foi perfeita, assim vale a pena correr!

Adenda

  • Comi às 19h30' um pão misto e bebi um Compal.

  • Embora tenha levado marmelada e um gel não os tomei.

  • A 'limonada' - foi ótimo ter levado, soube bem ir bebendo pois a noite estava abafada.

  • A t-shirt técnica de manga comprida é de levar, evita o contacto dos braços com a ramagem e protege o corpo em alturas que o fresco da noite mais se fez sentir.


  • Classificação:

    143º da Geral (acabaram 181) com o tempo final de: 3h02'51''

    Fotos desta prova:

  • Jorge Serrazina

  • Paulo Pires

  • Fernando Almeida

  • "O Mundo da Corrida" (Isabel Almeida e Paula Fonseca)