23.9.13

História de mentes perturbadas

Vejo-o sempre que lá vou treinar. De calções, garrafa de água na mão, está quase sempre num sítio onde o terreno faz socalcos e as raízes das árvores frondosas, são um bom local para se sentar e meditar.

Passo por ele em corrida, aproveitando a descida para imprimir um pouco mais de velocidade.

Digo bom dia, mas do outro lado nem som. Só o som do pinhal me responde.

Habituara a vê-lo, mês após mês. As vezes que não corro, vê-me de máquina na mão fotografando aqui e ali. Dantes levava uma garrafa na mão enquanto treinava, agora a garrafa vai no cinto e em seu lugar levo a máquina, minha companheira destas aventuras.

Estava no alto do pinhal tentando fotografar mais um motivo de interesse. Vejo-o a aproximar-se. Dirigi-me a palavra e faz-me uma pergunta que nunca esperava ouvir. Diz-me ele: - Como o vejo aqui sempre com a máquina, sabe-me dizer se o barulho que se ouve no pinhal é de cegonhas?

Cegonhas?! - disse eu perplexo. São cigarras que produzem este barulho por fricção das asas. Cegonhas são aquelas grandes aves que se veem e constroem os seus ninhos nas chaminés, ou nos postes de alta tensão.

Balbucinou algo, como um conhecido do Alentejo lhe tinha dito que eram cegonhas.

Fitei-o como não acreditando no que ouvira pois seria um pouco mais novo do que eu. Dando meia volta afastou-se.

Junto à entrada, um homem transportava ao ombro um saco cheio de caruma.

O som das cigarras soava menos forte, sinal que o verão está a acabar!

Foto: Mário Lima

4.8.13

Óbidos - TNLO - 26km

Depois do sucedido em Almonda e não totalmente recuperado, como estava inscrito para os 26km, resolvo ir à prova. Como prova noturna, o calor não seria muito e por isso arrisquei.

Sigo para Óbidos com a minha mulher e o amigo Vítor Veloso.

Um pôr-do-sol maravilhoso aguardava-nos...


Enquanto a prova dos 50 km começava às 21h, a nossa teve início às 21h45, mas antes disso o reencontro com os amigos...


Dado o início, como havia estreantes da minha Associação, resolvo ir com eles. Mas de noite todos os gatos são pardos e passei a ter a companhia de uma só companheira da Associação, a Ana Cristina.

Com descidas bastantes técnicas e íngremes que requeriam uma certa cautela, fomos fazendo a prova. Outros companheiros se foram juntando, e em grupo desafiamos a noite, só uma única vez nos perdemos perto dos 21km mas rapidamente voltamos ao trilho correto.

Duas valas com água mal cheirosa sendo a 2ª mais funda, que provocou umas cãibras a um companheiro que não contava mas nada de mais.

O pior estava para vir. Depois de mais uma vala, a Ana segue em frente, mas por mero acaso viro e o meu frontal incide sobre um sinal que fosforesce, o que nos indicava que a prova era por ali e não por onde a Ana ia.

Chamo-a e reparamos que era um coletor de águas residuais, com água estagnada, lama, aranhas e outras bichezas...

O companheiro que tinha ficado com cãibras numa das valas, tinha um arranhão profundo num dos gémeos. Seria um bom recetor de parasitas que estariam naquelas águas.

Saídos do tunel, cheios de lama, com o corpo a tresandar de mau cheiro, há que seguir em direção ao castelo que já se avistava.

Na subida final do "assalto" ao castelo, ouço que vinha a chegar o Luís Mota, o 1º dos dos 50km. Aguardo que passe e o Luís ao ouvir a minha voz de felicitação, disse para ir com ele, para acabarmos a prova juntos. E assim foi...

Foto: Ana Ceríaco

A foto com a companheira de toda a prova, Ana Cristina, não poderia faltar...

Foto: Ana Ceríaco

A caneca de mais uma bela prova noturna...

Foto: Ana Ceríaco

Um belo banho para limpar aquela porcaria toda e aguardo pela chegada do Vitor que fora para os 50km. Depois o regresso a casa e para o ano há mais.

Lugar da geral - 295

Escalão - 6º

Tempo - 3:52:28

7.7.13

Almonda - Ascensão e Queda!

A meteorologia dava como previsão, um tempo quente a rondar os 42º. Tinha feito o que sempre faço, hidratei-me durante a semana e a caminho da prova bebi o que tinha a beber.

No início tudo era sorrisos como sempre:




Eram 9h da manhã quando foi dada a partida. O sol já aquecia e bem. Em todos os postos de abastecimento comi melancia e bebi muita água.

Durante os primeiros km a sombra predominava, o sobe e desce ia-me desgastando, mas como nunca fui bom a subir...

Abastecimento dos 15 km. Ali iria terminar a sombra. A seguir seria a subida à Serra D'Aire. Ia na companhia de vários companheiros entre eles o Joaquim Adelino.


Depois de um pequeno engano no trilho e regressados ao caminho certo comecei a verificar que algo não estava bem. Comecei a ficar para trás e disse ao Joaquim que continuasse.

Comecei a sentir a cabeça "andar à roda". Tinha água no camelback e bebia, mas o sol impiedoso não me dava tréguas. Tinha que chegar ao abastecimento seguinte pois de nada me valia vir para o abastecimento anterior já que a distância era a mesma. Olhava para o GPS e via que andava (já há muito que não corria) a 20' o km. Nunca tal me tinha acontecido.

Estava desesperado. Abrigava-me na sombra das pequenas árvores que a serra tinha (com os incêndios havido em anos anteriores, toda a serra ficou "despida" de árvores). Via muitas borboletas juntas num só rebento tal a razia que tinha havido na serra.

Fortes dores de estômago comecei a ter. A vontade de vomitar era muita. A minha água parecia que tinha saído do fogão de tão quente que estava. Deveriam estar 43 a 44º ali. Por mim ou passavam ou ficavam nas pequenas sombras, outros "zombies" como eu.

Passou a Paula Madeira e disse-lhe que iria ficar no próximo abastecimento. Ela disse que faria o mesmo e seguiu. Já não conseguia levantar os pés do chão e aquilo sempre a subir. As pequenas pedras do trilho eram "pedregulhos" que me custavam a ultrapassar.

Fui apanhado pelo companheiro João Martins e foi ele a salvação. Levou-me literalmente ao "colo" até ao abastecimento do km22. Parava quando eu o fazia, sentava-se comigo quando já não tinha forças e assim fui-me aproximando do local onde ficaria.

Foto: João Martins

No abastecimento do km22, muitos dos que ali ficaram eu era o que estava em pior condição. Deitei-me à sombra da carrinha que lá estava e aí se alguém tivesse que se "apagar" apagava-se. Não havia sombra a não ser a projetada pela carrinha. Perto de mim o companheiro António Nascimento também sentia-se mal e, tal como eu, o vomitar era uma constante. Todos os que estavam em piores condições procuravam essa sombra como se dela dependesse a vida e se lá não fiquei (ou ficámos) posso agradecer a três pessoas que foram inexcedíveis; Ana Cristina Batista, Paula Madeira e ao José Velez. Para eles o meu muito obrigado. Grato por tudo o que tentaram e conseguiram até que a carrinha carregasse, até que a carrinha começasse a levar-nos e até que a carrinha chegasse ao Vale da Serra e aí nesse trajeto o José Velez foi enorme pois nunca me deixou um momento, preocupadíssimo pois várias vezes teve a carrinha que parar pois aquele caminho de cabras fazia com que o meu estômago se colasse à boca e vomitava o que tinha e o que não tinha.

Chegado ao Vale da Serra, aguardava-me o companheiro Vitor Veloso que ficou preocupadíssimo perante o meu estado. Fui encaminhado para umas escadas onde me sentei e os bombeiros tentaram a todo o custo fazer com que reanimasse. Tentaram dar-me de comer mas eu nem ver quanto mais comer. Lembro-me depois de um rosto, a Ana Ceríaco e ela ter dito que era enfermeira penso que foi quando me tirou sangue de um dos dedos para ver a glicémia que se encontrava normal. Mas eu já não "via" ninguém.

Os bombeiros queriam-me levar para o Hospital. A ambulância ao sol e estava renitente em ir pois lembrava-me do episódio terrível que me tinha acontecido na Geira Romana em 2010, mas os bombeiros tomaram a atitude certa, levaram-me para o Hospital de Torres Novas.

Dei entrada nas Urgências e os exames deram uma desidratação extrema que me tinha afetado os rins. Levei dois litros de soro e fui tratado com muito profissionalismo e carinho por todos (dediquei a assinei o meu peitoral que deixei no Hospital como reconhecimento pela forma como fui tratado).

No Hospital. Foto: João Martins

Agradecimentos:

O meu muito Obrigado aos bombeiros por terem tomado a decisão correta. Ao Vitor Veloso companheiro de muitas corridas pela enorme preocupação que sempre manifestou pela minha saúde e, no Hospital de Torres Novas, recebi a presença dele, da Paula Madeira, da Analice, Ana Ceríaco, Carlos Pinto-Coelho e Isabel Paiva (desculpem se mais houve mas naquele momento o discernimento não era muito).

À Margarida Henriques, ao Eduardo Santos e de novo ao João Martins que ali permaneceram no Hospital a meu lado em "prejuízo" da sua vinda para os seus recantos, pois deviam estar "estourados" e bem necessitados de descansar também.

Obrigado meus amigos. É esta forma de ser e estar que me faz acreditar que ainda há gente boa, há amigos que nunca devemos perder, há situações que acontecem que embora não a desejemos não acontecem por acaso.

Para todos o meu bem-haja e sabem que podem contar sempre comigo, para o que der e vier.

Agora terei que fazer novos exames para ver se os rins estão a funcionar em pleno e não ficaram mazelas. Mas acredito que não! Um “Comando” não se deixa afetar por estas pequenas coisas.

Obrigado a todos!

(coloquei aqui esta minha foto no Hospital de Torres Novas, não só como agradecimento pela forma excecional como fui tratado tanto pelo pessoal auxiliar, enfermeiros(as) e médicos, mas também para sabermos auscultar e aceitar os sinais do corpo. O meu corpo dizia-me que dali do km22 não deveria sair. Se tivesse continuado decerto que, a esta hora, a história poderia ter sido outra).

2.6.13

12ª Corrida do Mirante


Mais uma vez um regresso à Ota para participar na sua "Corrida do Mirante". Tinha ficado "rendido" o ano passado à beleza do percurso, à Organização impecável e ao convívio final no Parque das Merendas com o "à lá Assa Tu".

Desta vez para além do Vitor Veloso, da filha e da minha mulher, levava uma convidada especial, a atleta Analice Silva. A Organização fazia questão de a lá ter e esta grande Amiga não se fez rogada e lá foi. Numa singela e bonita homenagem foi-lhe entregue um peitoral personalizado e uma placa a assinalar a sua presença.

Foto: Mário Lima

O reencontro com os amigos...

Foto: José Marçal Silva

A foto da equipa de "O Mundo da Corrida" que esteve presente neste evento...

Foto: Irene Lima

Ao contrário do ano passado este ano não levei máquina fotográfica durante a prova, iria somente correr. A passagem pelo famoso "V" que exige uma boa dose de força física e anímica...

Foto: Paula Fonseca

Descidas que fiz sempre em bom ritmo...

Foto: Zita Pinto

... E um final cansado mas satisfeito pela prestação. 4º lugar no meu escalão em 1:28:30.

Foto: Irene Lima

Depois o Parque das Merendas...

Foto: Irene Lima

... E assim se passou um belo domingo, numa bela prova, num bom convívio e até pró ano... Na Ota!

P.S. - Um Obrigado à Organização pela simpatia com que ano após ano, nos recebem! Bem-Hajam!