14.2.10

Sofrer em Cascais

20km Cascais 2010

Não é costume meu escrever no próprio dia da prova em que participo, deixo passar um dia ou dois, recolho as fotos existentes e faço o tema.

Desta vez é Carnaval e não levo a mal contrariar esta minha faceta.

Nunca em 12 participações nesta prova tinha sofrido tanto para a acabar. Mesmo considerando que venho de uma lesão prolongada, já fiz outras de dificuldade elevada, como os 17km de Sintra-Cabo da Roca, e se nela tive alguma dificuldade nas subidas, na descida foi um abrir de asas e voar de "encontro" ao mar.

Em Cascais assim não sucedeu. A partir dos 17km não foi só o andar nas subidas foi que quando podia descer a correr as pernas não obedeciam, estavam como chumbo, por mais que dissesse que a meta estava ali e era só mais um bocadinho, não dava. Vi-me, em certa altura, na necessidade de andar no traço branco separador da estrada para não perder o norte.

Cascais2010
Fotos: AMMA

Como disse, já fiz 12 vezes esta prova, o melhor tempo foi em 1996 - 1h18'21'' em 2010 - 1h44'31'', mas mesmo com um tempo destes foi sofrido. Não está em causa, o terrível frio que se fez sentir, ou o vento, característica desta zona, já fiz a prova com chuva, vento e granizo de razoável tamanho e sempre a acabei em beleza.

Cascais2010
O cortar da Meta. Foto: Joaquim Ferreira

Nesta prova aconteceu uma situação que, em quase vinte anos de estrada, nunca tal ter feito, parar já no retorno, para dar um grande abraço ao Fábio Dias.

Foi o momento também para saudar o Luis Parro e o José Lopes. Na partida foi um encontro com o Joaquim Ferreira que, com a máquina fotográfica, estava pronto para registar mais umas máscaras de felicidade, de frustração e de esforço.

Na entrega das t-shirts, o pessoal podia evitar aquelas cenas menos dignas de revolver os caixotes, mas já nada há a fazer. Estes não necessitam do Carnaval, já fazem palhaçada todo ano.



Fotos: Mário Lima

8.2.10

Correr o Zeca em Grândola



Zeca Afonso
José Afonso - Foto: Mário Lima


Da última vez que tinha ido correr a Grândola (2005) tinha-me ficado na retina uma forma de se jogar à malha no Jardim Central que me fez desta vez levar a máquina fotográfica para registar o momento. Tive azar, desta vez não havia ninguém a jogar esse jogo tradicional. Fica para a próxima!

De todos os que tenho em referência no meu blogue nos «Quem Corre Comigo» só me faltava conhecer o Carlos Lopes. Assim aconteceu e até em conversa com o Carlos verifiquei que tínhamos algumas coisas em comum, do país onde o sol castiga mais.

A equipa do CCD de Loures esteve presente em bom número e todos, dentro das sua possibilidades, tiveram boas prestações.

CCD Loures
Alguns elementos do CCD de Loures- Foto: Mário Lima


O aquecimento foi feito em companhia do Vítor Veloso, onde conheci a filhota, a simpática esposa e mana.

À partida, agora, tenho sempre a companhia do amigo Carlos Coelho (Carlos como não tens blogue aqui fica o desejo de uma boa Maratona em Sevilha). E ali fomos nós pelas ruas de Grândola, terra da fraternidade! O povo é que agora nem sempre mais ordena, mas isso são outras histórias.

Dada a volta, o Carlos ficou-se e vim a ter a companhia do Vitor e, conversando, lá fomos percorrendo os kms. A nós juntou-se o Pedro Ferreira e, como disse o Vitor, em boa companhia nem se dá pelos kms a passar. No km final, numa subida (o meu calcanhar de Aquiles) o Vítor lá se foi, embora nos incentivasse a acompanhá-lo mas nem eu nem o Pedro estávamos para ali virados.



Após a pequena subida, tal como aconteceu em Sintra (embora o desnível fosse menor), dei uma de “sprinter” (coisa que faço sempre que possa, o que já me valeu uma chatice em Benavente) e a distância entre mim e o Vitor foi diminuindo. Mas a meta estava próxima e assim o trio acabou com pequenos segundos de diferença.

final
A terminar a prova - Foto: Ruth, esposa do Vitor

No final ali ficámos os três ofegantes mas satisfeitos. Obrigado Vitor e Pedro pois convosco já tirei mais dois minutos ao que vinha fazendo ultimamente nos 10 km.

Tempo: 48'37''

A seguir foi o almoço onde, mesmo aconselhado pela esposa do Luis Lourenço, não consegui comer as famosas migas alentejanas mas “vinguei-me” comendo a seu conselho, uma sericaia (e eu a pensar que com este nome fosse algo que nada tivesse a ver com a nossa doçaria).

sericaia
Sericaia - Foto da net

Segundo os cânones, a sericaia teve origem no Convento das Chagas de Vila Viçosa. Mas no Convento de Nossa Senhora da Conceição ou no de Santa Clara, em Elvas, o doce passou a fazer-se de outra forma. Acrescentou-se-lhe a canela e um ingrediente essencial: a ameixa de Elvas. Hoje em dia onde quer que peça uma sericaia, há 90% de hipóteses que esta se faça acompanhar pelo dito fruto.

E foi com ameixas que comi o dito doce. Abençoado convento.



29.1.10

Verdes São os Campos!...



Márcia Moscado

Através da janela, à minha frente, o campo estende-se num verde viçoso. No horizonte grossas nuvens iam-se formando, a chuva vinha aí.

A melancolia apossa-se de mim. Olho pela janela e, fechando os olhos, regresso a uma casa, a minha casa, a casa onde nasci!

Não é possível recordares a casa onde nasceste, dizia a minha Mãe, eras pequenino quando de lá saímos, terias dois anos... E nunca mais lá voltámos!

- Mãe, a casa era assim! – explicava eu. Um corredor, ao lado os quartos, a cozinha ao fundo, onde também costuravas e uma janela, uma janela que dava para o campo.

Com a mão no queixo e o cotovelo apoiado no parapeito da janela, ficava horas a olhar para o verde daquele campo.

Por certo naquela idade ainda não tinha idade para sonhar! Olhava talvez pelo verde que se estendia até tocar o azul do céu. Ou pelas nuvens grossas que se iam formando tal e qual como hoje... e a chuva caía, caía ora de mansinho ora em grandes bátegas. O céu era atravessado pelos raios, como se uma criança pegasse num lápis e desatasse ali a riscar sem nexo. Talvez estivesse eu a pegar nesse mesmo lápis e o riscasse. Em pinceladas colocava aquelas nuvens mais escuras, clareadas aqui e ali com relâmpagos,...

... E o verde do campo torna-se mais verde. Gotículas ficam agarradas às suas pequenas astes apontadas para o firmamento.

Talvez sonhasse com um futuro lindo para todos os meninos como eu. O meu cabelo era amarelo como as espigas de milho. Eu era a natureza, a natureza era eu!

Hoje sou uma réstia daquilo que era, mas olho através da janela e continuo a ser o que sempre fui... Um Sonhador!



P.S. - Tema do blogue "O Sonhador"

25.1.10

A Terra e o Mar



«E, a passo, o breque foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão...»

Eça de Queiroz in «Os Maias»


Ali estava eu em Sintra. A vila que não quer ser cidade. Sintra imortalizado pelo pena do meu conterrâneo Eça e por Lord Byron que a considerou o “Eden Glorioso”.

Pela primeira vez iria participar no «Grande Prémio "Fim da Europa"». Tinham-me referido como sendo uma prova difícil, mas se fosse fácil eu não estaria ali. Olho para as escarpas encimadas pelo Palácio da Pena. Que loucura do homem fazer um Castelo em tão alta penedia.

Quando vou para as provas faço questão de conhecer quem comigo partilha a escrita neste tipo de comunicação. Assim, através do Adelino, conheci a Otília e o José Brito e a Ana Pereira que fazia anos (mais uma vez Parabéns Ana). O amigo Fábio bem me procurou o Carlos Lopes mas não encontrado.

Prova começada. Perco de vista o Adelino e a filha Susana e começo a subir, subir, subir. Junto-me à Susana e as subidas nunca mais acabam. Olho para cima, vários patamares de gente correndo, ora num sentido ora noutro. Vejo o meu amigo João Melo, acelero e colo-me a ele mas foi um colar de pouca dura, não era supercola3 e lá se foi ele embora. Passam por mim os amigos Pedro Ferreira, o Hamilton e Fernando Faria, olho para trás para ver se só faltava passar o carro-vassoura mas, para meu alívio, tal não vislumbrei. Perco a pedalada começo a andar e, no último km a subir, quase que tenho vontade de dar meia-volta e começar a descer, mas sabia que faltava pouco para chegar ao cume. Durante o percurso vários ciclistas aproveitavam para nos saudar... E o céu ali tão perto!

Olho para baixo, para o verde da vegetação... Lindo! O céu, cinzento, aparecia entre as ramagens das árvores. Com o apoio do Carlos Coelho e incentivado pelo Adelino (obrigado amigos) atinjo o cume. Eis a descida. O Carlos acelera e eu vou com ele. Não corríamos, “voávamos”, deu vontade de ir à “reboleta” pela serra abaixo.

O Carlos, fazendo juz ao apelido, acelera cada vez mais, eu vou ficando, mas sempre numa boa passada (isto é como os carros, por mais rápido que a gente vá há sempre um carro que vai mais depressa).

Ao longe vou divisando o Cabo da Roca e o mar, ah, o mar! E eu que nasci tão perto de ti, agora tenho que subir e descer para te ver.

Um vento lateral forte vai-me empurrando, vejo a Otília e mais um esforço e estou a seu lado, mas quem treina nos trilhos de Almourol não dá hipótese e eu fico mais uma vez para trás numa luta solitária com o vento.



Corto a meta, dirijo-me à tenda, a medalha coloco-a com orgulho ao peito, peço um sumo, vou até às mesas e uma cantiga do Zeca me assoma:

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada!

Zeca, antes os vampiros eram os sisudos, agora até se riem na cara de quem lhes faz reparo para os sacos cheios. Pobres coitados!


Para o ano irei fazer esta prova de outra forma. Fica aqui o registo para não me esquecer!

Tempo Oficial: 1h33'42" (Nesta prova baptizaram-me de Mário Lino, Mário Lino "jámé"!!!)

Mais canções do Zeca Aqui