31.3.10

E era uma vez uma carrinha...



Sabemos bem que as pequenas coletividades têm grandes dificuldades de tesouraria e vivem quase sempre da exploração de um pequeno bar e/ou de algum pequeno empresário que a troco de uma publicidade numa camisola, consegue dar a conhecer a sua empresa quase sempre dedicada à construção civil ou a ela relacionada.

Assim acontecia no G.R.D. de Famões, coletividade por qual corri em 1992 e 1993.

Tínhamos um grupo jeitoso de miúdos(as) que faziam alguns brilharetes nas provas de bairro. Hoje já são homens e mulheres, muitos já com filhos, torna-se difícil reconhecer neles os miúdos de outrora, mas foram dois anos de algumas conquistas mesmo a nível de direção que estava mais vocacionada a apoiarem o futebol pois, como se sabe, o atletismo foi sempre o parente pobre do desporto.

O Famões para transporte para os diversos locais onde se iam desenrolar as provas tinha uma velha carrinha. Para virar a direção quase que era necessário comer um boi, mas nessa altura não havia inspeção e lá íamos todos os domingos na carrinha a deitar fumo negro pelo escape que qualquer carro que fosse atrás acendia os faróis pensando que tinha havido algum eclipse do sol.

Um dia calhou-me levar a carrinha para uma prova em Casais da Marinela, ali para os lados de Alenquer. Escusado será dizer que quando lá consegui chegar já ia estourado pois para além do problema da direção também vi-me “grego” para conseguir que a malvada chegasse ao Centro de Convívio onde teriam início as provas para os diversos escalões já que era sempre a subir até ao Centro.

Aqui com os meus filhos gémeos

Provas acabadas há que regressar a Famões. Mas aquela carrinha nunca mais lá chegaria. Na A8 (que estava em construção) negou-se a andar mais. Com um “cof-cof” final encostei-a à berma e aquilo era só garotada a sair de lá de dentro. A questão seguinte era como levá-los até à Sede, pois não os íamos fazer correr de perto de Loures até Famões. Lá abrimos os cordões à bolsa, foram chamados alguns táxis e assim se fez o resto da viagem.

A carrinha lá ficou e dali foi para o ferro-velho. Ainda devem haver coletivadades como a de Famões (já não tem atletismo), que fazem das tripas coração para que os jovens pratiquem desporto em vez de outros “desportos“ que corrompem o seu futuro. Infelizmente as Câmaras vão dando a machadada final e, assim, qualquer dia, não haverá atletismo nos bairros do nosso País, só os grandes eventos irão sobreviver graças ao bolso de cada um de nós.

A acabar a prova de 3km em 10' 33''

27.3.10

De Menina a Mulher





  Estavas no teu quarto sentada no chão, a separar as tuas coisas. Vi-te ali e recordei o dia em que nasceste. A primeira dos quatro. Tão pequenina, nascida antes do tempo, mas nada de cuidados, tiveste pressa em sair, nada mais!

  Olho para as fotos e ali estou eu a mudar-te as fraldas, a dar-te o biberão, a ver-te crescer!

  Lembro-me que, à socapa, pela porta entreaberta, te via desfolhar os meus livros que estavam na prateleira da cama.

  Lembro-me quando de mansinho de manhã bem cedo, te ia ver na sala e lá estavas tu com a TV ligada a ver os “bonecos”.

  Lembro-me quando te mostramos a tua irmã, e tu com uma sacolita ao ombro, olhavas com um sorriso do tamanho do mundo (que ainda hoje tens) para a tua “manita” mais nova.

  Lembro-me quando comprei o sistema para desligar a TV a determinada hora e tu durante uns tempos, fazias uma maroteira, ligavas os pinos e na hora de deitar, voltavas a colocá-los conforme eu os tinha deixado. Mas havia sempre um que não ficava como estava e durante uns tempos deixei-te pensar que te ias deitar a horas.

  Lembro-me quando comprei o “Spectrum” e ali passávamos horas a jogar com as plataformas, com os tiros às portas (de vez em quando lá ia um inocente), com as corridas e tu sempre a dar-lhe que até um dia lá se foi o “Spectrum”.

  Lembro-me do teu primeiro dia que foste para a escola primária e a foto que te tirei a abrires a porta de casa.

  Lembro-me quando, com a tua pasta de finalista na benção das fitas, com a tua capa preta sobre os ombros, ali na Cidade Universitária, todos nós te abraçamos orgulhosos por estares a um passo de acabares o teu curso.

  E os dias se transformaram em anos, de menina passaste a mulher, sempre junto a nós!

  Mas este dia teria que acontecer mais cedo ou mais tarde! Os pais desejam o melhor deste mundo para os seus filhos!...

Hoje é o dia do Teu Casamento... Que sejas feliz minha Filha!

23.3.10

O Canto da Ponte



                              A Ponte 25 de Abril cheia de gente
                              Muitos sorrisos, muita alegria
                              O CCD de Loures sempre presente
                              Já há muito faz esta romaria

                                      Da Ponte não vejo o Terreiro
                                      Mas não por causa da multidão
                                      Há sobre a cidade nevoeiro
                                      Como aguardando D. Sebastião

                              Vejo a Rosa de phones nos ouvidos
                              Dançando ao som do Rock And Roll
                              Ela que andou por caminhos perdidos
                              Lá longe, nos trilhos de Almourol

                                      Converso com o Pedro Ferreira
                                      Sei que há ali na distância batismo
                                      Vão correr a meia pela vez primeira
                                      O Rui, o Zé Pedro e o Levezinho

                              Um abraço ao Fábio Dias
                              Ao Hamilton e ao Rui Carmo
                              Fala-se muito de corridas
                              E os “vip’s” a aquecerem ao largo

                                      Alguns com uma boa pança
                                      De corredores nada se via
                                      E o Luís Mota junto à segurança
                                      Há duas horas parado… Aquecia

                              A meu lado outro campeão
                              O Hugo Adelino bem os olhava
                              Passariam depois os vip’s de ocasião
                              Como cão por vinha vindimada

                                      Partida, fugida às pressas
                                      Lá vai o pessoal num tropel
                                      Ouvem-se línguas diversas
                                      Parecia a Torre de Babel

                              Pensamento fisiológico me açoita
                              Parecia o filósofo Séneca
                              Logo a seguir atrás de uma moita
                              Fiz uma pequena paragem “técnica”

                                      Olho para o lado e quem vejo
                                      O Vítor Veloso e o António Almeida
                                      Sigo com eles e tenho o ensejo
                                      De acabar com eles a meia

                              Vimos o Carlos Lopes amigo
                              À perna, agarrado estava
                              Demos-lhe o incentivo
                              E lá foi ele em disparada

                                      Mas uma coisa é desejar
                                      A realidade é bem mais dura
                                      Aos 8km foi o meu acabar
                                      E lá se foi a pendura

                              Aos gritos de Mama Sumé
                              Passam os Comandos bons rapazes
                              Assim mesmo amigos é que é
                              A Sorte Protege os Audazes

                                      Cumprimento o Parro que apadrinha
                                      A estreia da esposa na meia
                                      Vai o Paulo Póvoa a toda a brida
                                      E pouco depois o José Pereira

                              Vejo o António Henriques e o Valério
                              O Costa e alguns petizes
                              Em dificuldades e de rosto sério
                              Em expressões nada felizes

                                      Junto-me ao “Mission impossible”
                                      Iam todos em ritmo certo
                                      Não vi o Pára é “incredible”
                                      E ele ali do “Comando” tão perto

                              Vejo a Meta até que enfim
                              Tomo logo a dianteira
                              A Rosa Mota espera por mim?
                              Não!.. É pelo Mário Ferreira


                                      Meta cortada, medalha ao peito
                                      Depois é o que se sabe no final
                                      Não há filas, não há respeito
                                      É gente medíocre de Portugal


                              Se esta minha má vontade passar
                              À Ponte pró ano hei-de voltar

22.3.10

Já não há Pontes como dantes!





Em 1992 fiz a minha primeira travessia da Ponte 25 de Abril. Era a sua 2ª edição e éramos meia-dúzia de gatos pingados. A prova começava às 9h30' e só era fechada metade da ponte poucos minutos antes de começarmos a correr.

Dava tempo para se aquecer sem problemas de espaço e para se fazerem tempos muito bons. Na minha primeira prova, pouco menos de seis meses depois de começar a correr foi de 1h24'10'' e devido à minha classificação ainda ganhei 1000 escudos.

O melhor ano foi em 1995 com 1h21'36''. Agora são aos milhares em cima da ponte. Não dá para aquecer pois os da mini juntam-se aos da meia-maratona e aquilo é uma confusão à partida. Isto é como na vida, quando os não consegues vencer junta-te a eles, mas isso não é para mim.

Duas horas ali parado em cima da ponte para não ter que caminhar ao lado de quem vai caminhar e não correr, é muito tempo. Com a de ontem são 14 as vezes que atravessei a ponte. O Cristo Rei continua a abraçar Lisboa, os autocarros cheios de multidões continuam a despejar ali na zona da portagem, as manifestações de alegria são imensas pois até que enfim que chegou o dia que muitas pessoas aguardavam para puderem atravessar a ponte a pé nem que seja uma única vez na vida e cada vez mais somo mais tempo aos mesmos kms.

Não sou saudosista e acho que as pessoas fazem muito bem em irem correr à ponte, mas aquela confusão da partida e chegada, lutarem por mais um saco e um gelado é de um povoléu ainda sem o mínimo de cidadania para participarem em provas deste gabarito.

Um segurança retirou um saco a mais que um indivíduo levava ao ombro. O argumento dele é que tinha pedido mais um saco para dar à mãe que se encontrava doente e abespinhou-se contra o segurança. Felizmente este não se amedrontou e disse-lhe. «Se quiser dar um saco à sua mãe dê o seu». Este segurança dava um bom Comando.


O meu Mama Sumae aos Comandos - Aqui Estamos, Prontos para o Sacrifício!

Para mim foi uma prova para esquecer. Corri, andei e só não desisti porque isso vai contra a minha forma de ser.

No fim ainda ia andando à pancada com um sujeito que achou que me deveria dar um chazinho. Prefiro um bom café, um café de Angola, bem apreciado no Café Baía, na Marginal de Luanda e não estou para aturar a mesquinhez de certas pessoas.

Obrigado Fernando pois fez bem em segurar-me. O resto da prova não teve história, excepto os bons amigos que lá na ponte e nos caminhos percorridos encontrei.