29.5.10

Vô, vem!...


 Todos nós aprendemos um pouco uns com os outros. Lembramo-nos das histórias de encantar, de lendas, de histórias de uma vida, contadas pelos nossos avós, pelos nossos pais.

 Hoje somos pais, somos avós, o que é que ensinamos aos nossos filhos? O que contaremos aos nossos netos?

 As histórias de encantar já perderam o seu encanto, as lendas já não entram nas conversas, as histórias da vida já não interessa pois os filhos nada sabem, ou não querem saber das histórias da vida dos seus pais.

 Muito do que escrevo tem muito do que me foi contado, do que foi sentido, do que foi vivido.

 Um dia partiremos e quando os filhos forem ver o espólio escrito deixado, ficarão admirados de lerem tanta coisa que lhes tinha passado ao lado e dirão: «Afinal o meu pai, ou a minha mãe, até escreviam umas coisas». E os nossos netos? O que de nós dirão?!...

 A sua pequena mão apertava a minha: «Vô, vem!» e puxava-me para o mar! E ria e pulava! As ondas iam e vinham e ele sempre a puxar-me: «Vô, vem!»

 E eu ficava a olhar aquela cabeça loirita como eu já tive quando pequeno. Os seus olhos azuis sorriam. Fazia-lhe pequenos montes de areia e ele dava logo um pontapé naquilo. Queria era a água, enchia-lhe o balde metia as mãos e molhava os braços e o corpo como me vira fazer!

 O mar que tanto eu vi em pequeno, agora levo o pequeno a ver o mar!

 O mar estava bravio, o vento soprava forte, mas ele sem receio só dizia:

 «Vô, vem!»

 Vou sim, meu neto!

Tema do meu blogue Deixa-me

Entre a Serra e Mar

Pensando que já tinha feito as despedidas das corridas antes das férias, eis que hoje desloquei-me a Janes para participar não nos 13km onde estava inscrito mas sim na caminhada, prova essa em que estavam inscritos o meu genro e o amigo Vladimir. Nunca tinha feito uma caminhada (6 km), mas a rotura muscular assim me obrigou e para não piorar mais a situação ali fui nas calmas, apreciando a natureza e convivendo com a família e amigos. As fotos que aqui estão são desses momentos.


Agora sim, as férias estão aí, até breve companheiros!

27.5.10

Vincit qui tapitut

Quem não sabe sofrer, não sabe vencer.


... Extenuado, dobro-me, e aguardo que a ambulância pare. Dela saem estas duas enfermeiras (???).


Depois de lhes ter contado tudo que tinha passado e das dores que sentia na coxa mandam-me sentar num cadeirão (com uma marquesa ao lado sem ninguém) e dão-me gelo para colocar na perna. A ambulância segue em direcção, não a um hospital, não a um Centro de Saúde mas sim para um posto de abastecimento. Reparem na fotografia em baixo. Estão vários corredores (Otília e Paulo Mota, entre outros). Estão à sombra não estão? A ambulância, neste local, ficou ao sol.


A canícula cá fora era intensa, dentro da ambulância deveriam estar 40º. As enfermeiras (???) saíam constantemente deixando-me lá dentro sozinho. De vez em quando lá vinham perguntar se me sentia melhor (como uma rotura se curasse por milagre do gelo) e queriam a todo custo que eu fosse para dentro de uma carrinha que lá estava. Se fosse necessário amparavam-me até lá chegar. Recusei pois não me sentia em condições e não fazia sentido eu estar, conforme estava, numa ambulância e ir para uma carrinha. Uma das enfermeiras (???) lastimava-se pelo facto de ter um velório e não poder lá estar, que para a próxima não contassem com ela. E saíram de novo as duas.

Comecei a sentir-me mal. A cabeça começou a latejar e uma névoa começou a toldar-me a vista. Coloquei a cabeça entre as pernas e pedi ajuda. Depois tudo se apagou.

Abro os olhos e vejo três rostos a olharem para mim. Não eram anjos, tinham a cara bem terrena. Eram as duas enfermeiras (???) mais um sujeito, que me mandou deitar na marquesa. Olho em volta e vi que tinha vomitado. Quando me deito na marquesa, verifico que as minhas pequenas botijas que tinha presas no cinto estavam espalhadas pelo chão. Para elas terem saído do cinto só podia ter acontecido uma coisa, tinha tido convulsões. Tinha desmaiado, tinha saltado naquela cadeira e não havia lá ninguém.

O sujeito pergunta se estava desidratado às enfermeiras (???) e uma delas (não a do velório) disse que me tinha visto beber água de um dos cantis, era um pouco de água que me restava da nascente. Tirou-me sangue de um dedo e disse que os níveis de açúcar estavam bem… e a ambulância ao sol. Felizmente como tinha a cabeça virada para a entrada sempre corria uma pequena brisa que me aliviava. Então começaram a falar para onde me levar, para o Hospital de Amares dizia uma, não, para Terras de Bouro dizia a outra. De dentro de mim saiu-me uma raiva surda e disse-lhes, «quero ir para junto dos meus companheiros, quero ir para Caldelas». Logo a do velório lançou um «bravo guerreiro» e… mandou-me para dentro da carrinha.

Já estava por tudo, a coxear saí dali e entrei na carrinha. Ao lado, noutra carrinha, vi o amigo Bandarra com outros companheiros. Do lado de lá, à sombra, estava a Dina Mota em pé e o Paulo encostado a uma árvore. Do meu lado, à sombra, vi a Rosa, tinha também desistido (os espanhóis também desistiram).

Através dos comunicadores ia ouvindo que alguém se tinha perdido também na serra e que os bombeiros o procuravam. O rapaz que estava como condutor da carrinha ia começar a andar quando me vieram os vómitos. Olhei para todo o lado e vi um saco plástico. Para não vomitar a carrinha peguei no saco e só depois é que reparei que o saco tinha uma sandes, era a sandes do rapaz, ficou sem ela. O sujeito que me analisou o sangue pediu um saco a uma das enfermeiras (???) e ela trouxe um, disse que era o único.

O rapaz lá partiu e fui vomitando pelo caminho. Os responsáveis de uma ambulância deixaram partir uma pessoa naquelas condições. Soube que tinha sido encontrado o companheiro que se tinha perdido (se calhar era eu), e fomos a caminho de Caldelas. Já não tinha mais para vomitar. Quase me saía o estômago, bílis, tripas e tudo o mais. Chegados a Caldelas, fui despejado da carrinha. Vi a Isabel, mulher do António Almeida, dirigi-me a ela para me ajudar. Mas a Isabel estava preocupada com o marido e não a quis incomodar, dei meia-volta e fui para o local onde estava hospedado. Aí soube que o Pára tinha ido para a estrada para ajudar quem viesse na corrida. Como tinha o estômago vazio pedi um café. Fui até ao quarto e atirei-me para cima da cama. Mas a cabeça não parava de andar à roda e de rastos cheguei à casa de banho. Sentei-me ao lado da sanita e vomitei o café. Não sei quanto tempo ali estive. Senti-me melhor, enviei uma mensagem ao Pára a dizer-lhe que estava na Albergaria. Tomei um banho, vesti-me, fui pagar o café e perguntei se não havia umas bolachinhas para aconchegar o estômago. Havia, comi, fui buscar água à fonte das Termas e, coxeando, fui esperar os companheiros que estavam a chegar.

A Geira não me venceu, eu irei vencer a Geira.




Nota final: Tudo aquilo que aqui está descrito é verdade. Não é inventado e assumo todas as responsabilidades pelo meu escrito. Será enviado os links destes meus temas ao Moutinho. Se assim o desejar, poderei ir ao local onde me perdi e dizer quem são as enfermeiras (???) que me “assistiram”. Tudo isto para que tal não volte a acontecer.



Classificações
~ Outras Fotos ~




Vítor Veloso Adelino - Guimarães
Nuno AlexandreAdelino - Geira

25.5.10

Que Nunca Por Vencido Te Conheças

(continuação)

Levantei-me a custo. A coxa doía-me mas não podia ficar ali. Olhando para as fitas sigo caminho. Queria chegar a algum lado onde pudesse ser recolhido. Olho para a última árvore do trilho. Estava lá uma fita mas parecia que já lá estava há muito tempo pois encontrava-se colada à própria árvore. Olho em redor e não vejo mais fitas. Ao meu lado direito um caminho cheio de pedras e bem lá em baixo vi casas. À minha frente, arbustos. Não olhei para cima. Como estava a fita naquela árvore só podia ser… para baixo.

Comecei a descer e cada passada era um tormento, aquilo era só pedras. Queria chegar a todo o custo às casas que via lá em baixo. Mas algo me dizia que não o deveria fazer. Agarrava-me às pedras e a cada passo mil agulhas se cravavam na coxa. Resolvi de novo subir. Tinha que encontrar a saída pois aquela não era de certeza. Volto à árvore, lá estava a fita. Entro nos arbustos (lembrei-me de Almourol, mas lá estavam fitas e o Brito a seguir). Nada! Arrisquei de novo e voltei a descer.


O "Rio Homem"

O meu desespero era grande. Estava só e não havia meio de sair dali. Desço, desço e as casas sempre longe (mais tarde soube que só a nado conseguiria lá chegar). De repente vejo um caminho melhor do que aquele que vinha mas era a subir. Pela caruma aquele caminho já não era utilizado há muito tempo, era tempo do “Marius o Romano” fazer daquele caminho a sua Geira, tinha que voltar ao topo da serra. A salvação estava lá em cima, mas teria que subir muito. A dor incomodativa não me deixava pisar o chão como devia ser e a custo fui subindo, subindo, subindo! Fui enchendo o cantil nas nascentes que corriam da serra. Sinto restolhares, seriam lobos? Haveriam lobos na serra? Olho em volta e nada vejo que me possa valer. Pensei que se houvesse lobos seria o meu fim. Sempre olhando para o lado continuo subindo.


Nascente na serra

Paro por uns instantes e escrevo uma mensagem ao Pára: «Amigo Joaquim, caí, tenho uma rotura muscular e estou perdido na serra. Fala com o Moutinho para me virem buscar». Quando vou para enviar a mensagem vi que faltava ali algo, onde é que eu estava? Não o sabia, o Joaquim nunca a iria receber, não o quis preocupar, e assim resolvi encontrar sozinho a saída. Só em última instância enviaria um pedido de socorro.

De repente ouço o telemóvel a vibrar, era uma mensagem do amigo Vítor Veloso que perguntava onde é que eu estava. Amigo Veloso nem sabes o quanto feliz fiquei quando recebi a tua mensagem. Já andava há quase uma hora perdido na serra. Tinha o tlm em silêncio e ele bem tentou ligar para mim, assim, como não respondia, mandou a msg. Bendito telemóvel, tinha rede ali na serra. Liguei para o Vítor, e contei-lhe a minha situação, disse-me ele que já ia nos 35km. Pouco depois recebo outra msg dele com o nº de telemóvel do Moutinho.


O centurião Moutinho e o Imperador "Julius" Ribeiro

Eu ia sempre subindo e de repente ouço barulhos de carros. Tinha chegado à estrada. Uma ambulância passava naquela altura. Pus-me aos saltos, mas não me viram e seguiram. Ouço mais um motor, olho para trás e vejo outra ambulância. Mando parar e foi o pior que me podia ter acontecido. Tinha chegado ao Inferno!!!

(continua)



P.S. - Através das fotos do Nuno Alexandre já descobri onde tudo aconteceu, mas não sei que local era aquele (clicar para ampliar).



Aldeia que vi lá do alto e que tentei alcançá-la.



Afinal era subir e não descer como o fiz.



Já vi que tenho muito que aprender para não cair em erros grosseiros como este que podia ter-me custado muito caro.

24.5.10

Geira adiada...



Prólogo

A vida dá-nos muita experiência. Quando pensamos que sabemos tudo eis que a vida nos demonstra que somos ainda uns aprendizes e que estamos sempre a aprender, seja na vida profissional, seja em actividades lúdicas. Nesta prova da Geira aprendi várias lições. Vou começar por elas.

1º - Se se vai participar numa prova que requer de nós muita atenção, pois dela pode depender até a nossa própria vida, não podemos levar nada que nos distraia como por exemplo uma máquina fotográfica, a não ser que se tenha grande experiência ou não se distraia com as paisagens maravilhosas que uma prova deste género nos oferece.

2º - Ir sempre acompanhado por alguém, mesmo que não seja muito experiente, nunca correr sozinho. Caso se perca ou caia tem sempre ali alguém que o pode socorrer.

3º - Nunca perder a calma, mesmo que esteja só num local sem nada nem ninguém a não ser uma serra, ter sempre o sentido de orientação que o faça levar à estrada e seja socorrido.

4º e último – Levar um telemóvel com o nº de contacto do director da prova.

A Prova

A expectativa era grande. Iria correr num local onde há cerca de 2000 anos atrás soldados da legião romana tinham feito aquela via romana que ligava Bracara Augusta e a Asturica Augusta. Mas nós não iríamos correr só na Geira. Haveria outros caminhos que teríamos que subir e descer, serra acima serra abaixo, tentando ter sempre em atenção as fitas, vermelhas e brancas, que nos indicariam o caminho e aí, uma distracção, pode ser fatal.

Sete da manhã. Depois de uma noite mal dormida, o Pára tinha uma hemorragia no nariz onde estava difícil estancar o sangue, juntamente com o Daniel (a Susana iria fazer os 15km), a equipe TANDUR, a Otília e o Brito, José Magro e tantos outros amigos, vamos para o local de partida em Lóbios (Espanha). Aqui encontro o “Júlio César”, com óculos e tudo, hoje, até com os “romanos”, é só modernices.


Depois da alocução sobre a prova, e dos "Ave César", eis a partida, já passava das nove e já se fazia sentir algum calor, para os 52,512km da Geira Romana. Sigo com um grupo compacto, tirando aqui e ali algumas fotos, olho para trás e vejo o Pára parado agarrado ao nariz. Sangrava copiosamente. Volto e fico com ele até aparecer um elemento da organização e ali o Pára ficou. A coluna já ia longe, vou ao alcance dela e junto-me de novo ao grupo. Teríamos cerca de 7km de subida até à fronteira. Ia atrás da Analice quando, em terreno “pantanoso”, ela sobe para uma pedra e pára, contando que ira saltar para a pedra seguinte eu, já em salto, não tive outro remédio senão enfiar o ténis direito no lamaçal, resultado o ténis ficou enterrado e tive que o “pescar” cheio de lama e pedras, a meia também ficou imediatamente suja. Retiro o maior e sigo. Mais em cima, num pequeno riacho (uma constante na prova), lavo o ténis e a meia. Lá tive que recolar de novo. Até à fronteira (Portela do Homem) correu tudo bem e ali estava o Moutinho (o director da prova) a incentivar-nos.


Moutinho com uma boina paraquedista, vestido de centurião, na fronteira.


Um abastecimento só de água e lá vamos de novo. Aqui vou com um grupo onde incluía a Rosa com os seus fones (ler artigo sobre Almourol). Pouco depois a Rosa tem um autêntico "espalhanço", tropeçou numas raízes e foi ao chão. Lá a levantamos e depois surge o primeiro erro. Não vimos as fitas e íamos seguir saltando um pequeno rio, a nossa sorte é que passa naquele momento a Otília e nos diz que o caminho era pela ponte (travessia do Rio Homem, na Albergaria) onde havia um primeiro controle (levávamos no dedo um chip que era colocado num aparelho que assinalava a nossa passagem).


A ponte do caminho certo.


Seguimos mas a Rosa começa a ficar para trás. Como só estávamos os dois e eu não a queria deixar sozinha, aguardo que um grupo se chegue e deixando-a tento apanhar a Otília que, como eu, ia tirando fotos do percurso. A distância já era muita, mas como não estava com problemas físicos sigo em bom ritmo. Os marcos miliários sucedem-se.


A paisagem envolvente era linda. Perco-me ali a tirar algumas fotos não perdendo a Otília de vista.


A meu lado, a Albufeira de Vilarinho das Furnas. Lindo, espectacular e aqui começou o princípio do meu fim. Mais umas fotos. Naquele momento deixei de ver a Otília. Fiquei perplexo. Onde se teria metido?
Reparem na foto abaixo, vêem uma fita em baixo no lado direito? A máquina viu-a, eu não a vi.


Como não a vi segui em frente. Não via nenhuma fita nas árvores mas como era calçadão pensei que para a organização não valeria a pena, embora o Moutinho nos tivesse alertado que se não houvesse uma fita entre 100 a 200 metros era sinal que não estávamos no caminho certo. Olho para baixo, para a Albufeira, e vejo corredores num trilho. Como é que tinham para lá ido? Não via nenhum caminho e sigo sempre. Passam os bombeiros por mim e como nada me dizem penso que estou no caminho certo. De repente vejo uma estrada e pessoal a correr. Vi que estava enganado. Grito para os bombeiros a perguntar se estava enganado, e eles nessa altura disseram-me que sim, que teria que voltar para trás. Não escrevo aqui o que me ia na alma, percorri mais de 1km perdido e eles viram-me e nada disseram. Volto para trás sempre olhando para o chão e vejo as fitas que não tinha visto. Uma descida maravilhosa até ao rio e foi aí o segundo controlo (junto da Barragem de Vilarinho das Furnas).

Vejo o último classificado acompanhado pelo elemento da organização em BTT. Eu era o último atrás do último. Soube que tinha tido uma quebra de tensão e tinha caído, mas não quis desistir. Acabou a prova já fora de controlo mas acabou.

Volto a passar pelos mesmos bombeiros, que aqui referi, mas já no caminho certo. Mais uns marcos com inscrições romanas.


Como me sentia bem, deixo o meu companheiro e sigo sozinho. Encontro um casal de espanhóis e fomos juntos até ao terceiro controlo (no Museu da Geira).


Casal espanhol numa ponte romana


Aqui já o abastecimento era com sólidos. Estava lá um dos amigos dos Abutres (Bandarra), que tinha torcido um pé (ainda íamos com a Rosa) e tinha desistido. Enquanto o casal fica a descansar eu sigo caminho. Vejo uma cerca com cavalos mas não eram os tais “garranos” (cavalos característicos desta zona) que queria ver. Vejo fitas, muitas fitas (mais tarde disseram-me que eram fitas que tinham ficado da Geira anterior) com marcos indicadores da Geira para cima e para baixo (eram pilares de madeira a indicar também o caminho). Não sabia o que fazer, fui seguindo as fitas que pareceram correctas mas tendo a ideia que parecia uma pescadinha com o rabo na boca. Volto a encontrar outros bombeiros que me disseram que estava no trajecto correcto. Mas eu sabia que tinha perdido tempo ali às voltas (outros mais experientes que eu também se perderam e alguns em situações graves). Sigo em frente na estrada, pouco, e algo estava mal. Não via fitas. Volto para trás e ali encontro o casal de espanhóis. Aí confirmei que tinha andado perdido. Tinham ficado a descansar e ali estavam de novo ao pé de mim. Vimos as fitas e lá fomos pelo campo. Resolvi nessa altura ir com eles. Já não iria encontrar a Otília e assim iria com os espanhóis até ao fim. De novo estrada, fitas do lado direito, e eis nós em plena serra. Lamaçal aqui e ali. Subidas e descidas em pequenas e grandes pedras para evitar ao máximo a lama. Salto para uma grande pedra e tento saltar para terreno sólido, o pé escorrega, tento desesperadamente segurar-me, finco a perna e sinto o músculo da coxa rasgar. Caio desamparado e os espanhóis tentam levantar-me. Não conseguia. Para que eles não perdessem tempo mando-os seguir. Foi o meu maior erro. Fiquei só, mal podendo andar, num lugar sem nada nem ninguém, só eu e a serra.



(continua)