Quem não sabe sofrer, não sabe vencer.... Extenuado, dobro-me, e aguardo que a ambulância pare. Dela saem estas duas enfermeiras (???).

Depois de lhes ter contado tudo que tinha passado e das dores que sentia na coxa mandam-me sentar num cadeirão (com uma marquesa ao lado sem ninguém) e dão-me gelo para colocar na perna. A ambulância segue em direcção, não a um hospital, não a um Centro de Saúde mas sim para um posto de abastecimento. Reparem na fotografia em baixo. Estão vários corredores (Otília e Paulo Mota, entre outros). Estão à sombra não estão? A ambulância, neste local, ficou ao sol.

A canícula cá fora era intensa, dentro da ambulância deveriam estar 40º. As enfermeiras (???) saíam constantemente deixando-me lá dentro sozinho. De vez em quando lá vinham perguntar se me sentia melhor (como uma rotura se curasse por milagre do gelo) e queriam a todo custo que eu fosse para dentro de uma carrinha que lá estava. Se fosse necessário amparavam-me até lá chegar. Recusei pois não me sentia em condições e não fazia sentido eu estar, conforme estava, numa ambulância e ir para uma carrinha. Uma das enfermeiras (???) lastimava-se pelo facto de ter um velório e não poder lá estar, que para a próxima não contassem com ela. E saíram de novo as duas.
Comecei a sentir-me mal. A cabeça começou a latejar e uma névoa começou a toldar-me a vista. Coloquei a cabeça entre as pernas e pedi ajuda. Depois tudo se apagou.
Abro os olhos e vejo três rostos a olharem para mim. Não eram anjos, tinham a cara bem terrena. Eram as duas enfermeiras (???) mais um sujeito, que me mandou deitar na marquesa. Olho em volta e vi que tinha vomitado. Quando me deito na marquesa, verifico que as minhas pequenas botijas que tinha presas no cinto estavam espalhadas pelo chão. Para elas terem saído do cinto só podia ter acontecido uma coisa, tinha tido convulsões. Tinha desmaiado, tinha saltado naquela cadeira e não havia lá ninguém.
O sujeito pergunta se estava desidratado às enfermeiras (???) e uma delas (não a do velório) disse que me tinha visto beber água de um dos cantis, era um pouco de água que me restava da nascente. Tirou-me sangue de um dedo e disse que os níveis de açúcar estavam bem… e a ambulância ao sol. Felizmente como tinha a cabeça virada para a entrada sempre corria uma pequena brisa que me aliviava. Então começaram a falar para onde me levar, para o Hospital de Amares dizia uma, não, para Terras de Bouro dizia a outra. De dentro de mim saiu-me uma raiva surda e disse-lhes, «quero ir para junto dos meus companheiros, quero ir para Caldelas». Logo a do velório lançou um «bravo guerreiro» e… mandou-me para dentro da carrinha.
Já estava por tudo, a coxear saí dali e entrei na carrinha. Ao lado, noutra carrinha, vi o amigo Bandarra com outros companheiros. Do lado de lá, à sombra, estava a Dina Mota em pé e o Paulo encostado a uma árvore. Do meu lado, à sombra, vi a Rosa, tinha também desistido (os espanhóis também desistiram).
Através dos comunicadores ia ouvindo que alguém se tinha perdido também na serra e que os bombeiros o procuravam. O rapaz que estava como condutor da carrinha ia começar a andar quando me vieram os vómitos. Olhei para todo o lado e vi um saco plástico. Para não vomitar a carrinha peguei no saco e só depois é que reparei que o saco tinha uma sandes, era a sandes do rapaz, ficou sem ela. O sujeito que me analisou o sangue pediu um saco a uma das enfermeiras (???) e ela trouxe um, disse que era o único.
O rapaz lá partiu e fui vomitando pelo caminho.
Os responsáveis de uma ambulância deixaram partir uma pessoa naquelas condições. Soube que tinha sido encontrado o companheiro que se tinha perdido (se calhar era eu), e fomos a caminho de Caldelas. Já não tinha mais para vomitar. Quase me saía o estômago, bílis, tripas e tudo o mais. Chegados a Caldelas, fui despejado da carrinha. Vi a Isabel, mulher do António Almeida, dirigi-me a ela para me ajudar. Mas a Isabel estava preocupada com o marido e não a quis incomodar, dei meia-volta e fui para o local onde estava hospedado. Aí soube que o Pára tinha ido para a estrada para ajudar quem viesse na corrida. Como tinha o estômago vazio pedi um café. Fui até ao quarto e atirei-me para cima da cama. Mas a cabeça não parava de andar à roda e de rastos cheguei à casa de banho. Sentei-me ao lado da sanita e vomitei o café. Não sei quanto tempo ali estive. Senti-me melhor, enviei uma mensagem ao Pára a dizer-lhe que estava na Albergaria. Tomei um banho, vesti-me, fui pagar o café e perguntei se não havia umas bolachinhas para aconchegar o estômago. Havia, comi, fui buscar água à fonte das Termas e, coxeando, fui esperar os companheiros que estavam a chegar.
A Geira não me venceu, eu irei vencer a Geira. Nota final: Tudo aquilo que aqui está descrito é verdade. Não é inventado e assumo todas as responsabilidades pelo meu escrito. Será enviado os links destes meus temas ao Moutinho. Se assim o desejar, poderei ir ao local onde me perdi e dizer quem são as enfermeiras (???) que me “assistiram”. Tudo isto para que tal não volte a acontecer.