3.8.10

Sou um DURO

(continuação do tema anterior)

A Prova

Logo ali na partida, uns procuraram correr junto ao mar, outros pela areia seca. A inclinação na areia molhada era acentuada e implicava um esforço enorme na zona ilíaca já que as pernas estariam desfasadas. Optei inicialmente correr pela areia seca por estar numa zona mais direita. A areia batia-me nos pés mas graças às polainas não entravam nos ténis. O peso do camelback fazia-se sentir mas nada que não se aguentasse bem e foi graças ao camelback que cheguei ao fim.

Início da prova – Foto: Isabel Almeida

Os primeiros 5,5 km em 48'36'' (Praia da Aberta Nova). Os 10 km (Galé) em 1h17'15''. Aí comi a primeira banana. Senti-me bem. O desgaste começava a ser muito. Procurei correr junto ao mar e fazia-o tentando pisar terrenos já pisados pelos outros, se o afundanço era muito era sinal que quem o fazia era mais pesado que eu e era esse que procurava pois não iria afundar mais do que já tinha sido feito. Mas a maré ia subindo e ia “limpando” essas passadas.

Sulcos – Foto: Carlos Lopes

De repente vejo um pouco à frente, sentado na areia, o «Pára que não para» (Joaquim Adelino). Teria desistido? Verifico que mexe nas meias especiais que trouxera para correr junto à água. Tento apanhá-lo mas ele levanta-se, vai de novo para a orla do mar e cada vez mais se distancia de mim.

Vou correndo e andando conforme posso. O mês que estive parado, devido à lesão na coxa na Geira Romana, e a falta de treinos começava a fazer-se sentir. Atrás vinha a Célia Azenha e o Paulo Paredes (que fez comigo grande parte dos "Trilhos de Almourol") que me ultrapassam, procuro ir com eles.

Paulo Paredes e Célia Azenha. Foto: Espiralphoto

Ainda aguentei um pouco para além dos 15 km (Pinheiro da Cruz - 2h15'31''), mas aquilo era “pedalada” demais para mim. Já tinha os ténis encharcados e, curiosamente, a areia (pouca) entrou por eles. Mas nada que me impedisse de continuar. Aos 18,5 km (Pego - 2h58'37''), como a segunda banana (como vi o pano ao longe pensava que indicavam os 20 km), aí deixo o saco plástico, tinha levado dois numa das bolsas, com o lixo que tinha feito. Durante os 43 km não vi um único caixote de lixo na praia. Como não sou de mandar o lixo para o chão, corria com ele até o entregar junto à organização.

Como passei a correr junto ao mar a dor na zona ilíaca fez-se sentir. Daí passou para a zona lombar e eis que surge a dor que mais temia que aparecesse, junto ao pescoço, perto das vértebras cervicais. Já me tinha acontecido o mesmo nos Trilhos de Almourol, sabia que a partir daí não podia movimentar o pescoço e um dos braços ficaria quase inerte. Aos 20 km (Carvalhal - 3h14'00'') o terreno piorou. Já não sabia se devia subir se descer. Como um cubo de marmelada dada pela organização e continuo. Não podia desistir, tinha que aguentar. A limonada ia-me ajudando. Muito bebi durante o percurso. Sabia que aos 28,5 km teria mais um litro de água.

E os km foram percorridos, não sabia quantos pois não havia marcações, sabia, é que tinha que chegar ao posto de controlo para me abastecer e para tentar aliviar a dor, caso tivessem lá o “spray” milagroso. Tinham!

(continua)

A Homenagem

Tinha feito a promessa. Fosse em que circunstância fosse, não iria desistir. 7h46’47’’ depois da partida em Melides, corto a meta em Tróia. Tendo a Umbelina como testemunha, tiro o chapéu, levo-o ao peito e ergo-o aos céus. A prova foi a minha

HOMENAGEM a todos os meus camaradas de armas, aos que lutaram e aos que, em combate, morreram na Guerra do Ultramar.

O chapéu era de um “inimigo” (ler num dos temas anteriores).

A Preparação

4h15’ da manhã. Dois despertadores tocam mas já estava desperto, a ânsia era muita, ia participar pela primeira vez na Ultra Maratona Atlântica Melides – Tróia.

Já tinha tudo preparado na noite anterior, excepto envolver as quatro bananas em papel alumínio e fazer o preparado da limonada (camelback já com água e o depósito só com a mistura - ler tema anterior). Como pequeno-almoço, foi pão com doce de goiaba e banana e um “abatanado” que ajuda a ida à casa de banho. Chinelos, uma toalha para um banho de mar em Tróia e eis-me a caminho de Setúbal.

Chegado lá, nem por acaso, dou logo de caras com o Joaquim Adelino, o Daniel e o Luís Parro. Dão-me a indicação onde poderei colocar o carro e lá vamos para dentro do barco. Claro que sendo o único barco que poderíamos apanhar para chegar a tempo de apanhar o autocarro da organização em Tróia para Melides, estava apinhado de corredores. A grande Analice, o Carlos Coelho (Parabéns pela tua bela prova), o Fernando Andrade e tantos outros conhecidos e desconhecidos, todos compenetrados na prova que nos aguardava, correr 43 km em areia.

Entrados no autocarro, fiquei ao lado da Analice e foi um puxa-saco hilariante de histórias do passado desta grande corredora, contando as suas corridas no estrangeiro, a “morte” dela e o seu ressuscitar, e o "agarra-te ao pau", uma brincadeira que tivemos nos Trilhos de Almourol quando descíamos a Barragem do Castelo de Bode. Chegados a Melides, mais companheiros conhecidos, o José Melo, o Carlos Lopes, o Vítor Veloso, o António Almeida e o Luís Mota.

Abraço ao amigo Luís Mota. Foto: Retirada do Vídeo


José Melo – Joaquim Adelino – Daniel – Carlos Lopes e eu – Foto: Luís Parro

Feito o “briefing”, com a presença do grande campeão olímpico Carlos Lopes, vamos para o local de partida.

Foto: Carlos Lopes

O tempo estava nublado, o mar “rugia”, se era maré baixa não parecia, a areia quando pisada afundava. Tinham-me dito que os primeiros 15 km seriam maus, mas não foram os primeiros 15, foram cerca de 37 km de sofrimento, sendo os primeiros 20 km melhores (se entender aquilo como melhor) que os seguintes 17. Mas só vim a saber isso depois.

Momento de boa disposição. Foto: Carlos Lopes

Dado o tiro de partida, 200 corredores lançam-se à conquista da areia, 43 km de dificuldades aguardavam-nos. Só os mais bem preparados chegariam ao fim. Chegaram 166 (156 homens e 10 mulheres).

(continua)

29.7.10

Jacta Alea Est (os dados estão lançados)


Embora já tenha realizado maratonas, esta será diferente das outras porque a mesma se efectua em… areia.

Serão 43 km de Melides a Tróia que irá colocar-nos à prova quanto à resistência humana, pois a mesma será em auto-suficiência, excepto perto dos 28.5 km que teremos direito a um litro de água.

Acreditem que não me assusta o desafio. O pior desafio que tive que vencer em provas às quais não estava habituado, foram os 40 km dos Trilhos de Almourol, pois os 52 km da Geira Romana só não foram vencidos porque me lesionei.

Durante estas semanas que antecederam, treinei onde sempre treinei já vai para quase 20 anos na época do verão… na praia. Ou durante as férias no Algarve, ou na minha Costa da Caparica, é na praia que me sinto bem. Sou nortenho, nasci junto ao mar, na minha Póvoa de Varzim, sou poveiro de sete-costados. A minha pele foi curtida pelo sol de Luanda que tanto amei e pela Costa que foi vendo a minha mudança de menino e moço no “velhote” que começo a ser.

A família Lima na praia da Floresta na Ilha de Luanda. Estou ao lado da minha Mãe.

O treinar na praia não me dá mais-valias pois as areias são diferentes e quem conhece a Póvoa sabe bem o que eu digo. A areia da praia de banhos não tem nada a ver com a areia mesmo ali ao lado do porto de pesca. Uma areia grossa que se faz fina bastando passar por isso um cais.

Embora não seja muito de ler os artigos referentes às provas dos meus companheiros e tomá-los como o supra sumo da sabedoria popular quanto a este ou aquele evento, é neles que vou “beber” um pouco do que poderei fazer e que caminhos tomar no que relaciona ao equipamento adequado, alimentos a tomar e aos líquidos a ingerir durante o percurso.

Tenho a referir que quanto a isso, o resultado foi quase… zero. Não há “cultura” ainda pré-definida nos escritos que possam ajudar quem pela primeira vez vai participar numa prova desta envergadura.

Confesso até que me fez sorrir certos conselhos dados (via mail) o que tomar durante o percurso. Não vou dizer aqui o que me foi transmitido por respeito a quem mo informou, mas não faz sentido aquilo que ouvi. A experiência, de 20 anos de corrida, diz-me que é lírico aceitar como verdade, aquilo que aos comeres dizem respeito. Tem que haver o bom senso e não dar falsas pistas para que o “caloiro” consiga levar o desafio a bom porto.

Assim eu próprio delineei para mim o seguinte. Este proceder não significa que tenham que o seguir. Cada um de nós é um caso diferente e se há quem antes das provas goste de beber um bom cálice de vinho do Porto, acordar a mulher para ter uma relação sexual, sentindo que assim a prova lhe irá decorrer da melhor maneira, para outros assim não será e quem sou eu para afirmar que aquilo que vou escrever, é a verdade acima de qualquer de outras verdades. Tudo aquilo que vou fazer foi testado por mim durante os treinos e provas que fiz. Posso é durante a prova alterar o processo, pois nada é imutável. Já fiz provas em que todos paravam a abastecer-se e eu seguia sem o fazer. Que nada seja feito sem ser testado primeiro.

. Quanto ao calçado, está definido. Meias pelo meio da coxa e as polainas aí apertadas.


. Calções de banho de lycra, já testados, com vaselina nas virilhas (a vaselina também serve para isto).

. T-shirt de algodão, cores claras. As técnicas não são, para mim, muito apropriadas para este tipo de prova, sufocam-me!

. No camelback:


Limonada caseira referenciada no site da UMA, já a faço há 20 anos:

Água, açúcar, uma pitada de sal e sumo de limão (irei levar no cinto um depósito com iguais produtos para juntar à água que nos será fornecida aos 28.5 km)

Nas duas bolsas laterais – Água sem aditivos

4 Bananas, pois a banana é um energético natural, para comer aos 10, 20, 30 e 40 km, se tal for necessário.

Contendo 3 açúcares naturais (sacarose, frutose e glicose) combinados com fibra, a banana dá uma rápida e substancial elevação da energia de cada um.

Pesquisas provam que apenas 2 bananas fornecem energia suficiente para 90 minutos de exercícios extenuantes.

Não é por acaso que a banana, como energético, é a fruta número um dos atletas de alta competição.


. No cinto para além do telemóvel, um cartão de identificação, três GEL de maçã, duas a três barras energéticas, umas tabletes de hidratos de carbono (podem não ser necessários mas nunca se sabe), e o tal reservatório com o composto para se juntar à água.

. Na cabeça o chapéu, óculos de sol (como aprendi com o Parro, a melhor forma dos óculos não embaciarem é cuspir neles).

Para quem não está habituado à praia um bom protector não faz mal nenhum.

Como disse Júlio César há mais de dois mil anos atrás:

Jacta Alea Est (os dados estão lançados)


Estou preparado para o desafio, venha ele!

8.7.10

O Chapéu

(Aqui fica a história do chapéu referido no tema anterior.)


Aqui, à minha frente, tenho um chapéu. Um chapéu como tantos outros mas um chapéu com história.


1975, a revolução já se tinha dado em Portugal. Em Tando-Zinze, Cabinda, junto ao Mayombe, uma companhia fazia ali o seu poiso. Às notícias vindas do “puto” respondíamos com a continuação das patrulhas pelos trilhos abertos naquela floresta, naquele mar vegetal.

Os interesses partidários engendrados à socapa em Portugal começaram a fazer-se sentir nas províncias ditas ultramarinas.

O apoio dado a um só movimento em Angola pelas altas esferas dominantes pós 25 de Abril, fez com que os nossos quartéis começassem a ser entregues a esse movimento.

Uma delegação do MPLA é recebida no nosso quartel. Nós, os furriéis, aguardávamos serenamente na nossa messe, o resultado das conversações que estavam a decorrer dentro do gabinete do nosso capitão.

Alguns elementos do MPLA dirigiram-se para a nossa messe. Queriam beber algo fresco.

À primeira reacção de cautela da nossa parte, logo o ambiente se tornou amigável e então olho para um dos que ali estava. Ele sentindo o meu olhar, olhou-me também fixamente e houve da nossa parte algo indescritível, demos um grande abraço para surpresa de todos, os “inimigos” estavam abraçados!

E ficaram a saber toda a história, tínhamos trabalhado na mesma empresa em Luanda, exactamente nas oficinas da União Comercial de Automóveis no Bairro da Boavista.

Soube, contado por ele, que a Pide/DGS andava à sua procura para o prender. Assim optou por fugir e foi para as FAPLA.

Olhei para este amigo e agradeci aos deuses o facto de nunca o ter encontrado no campo de batalha frente-a-frente. Um dos dois teria morrido nessa altura.

Na hora da despedida ele ofereceu-me o seu chapéu, hoje, 34 anos passados, ainda o tenho guardado.

Eu, com o chapéu, no quartel em Tando-Zinze


Obrigado amigo, estejas onde estiveres!