O meu olhar estende-se pela praia. Parecia uma auto-estrada, e então dá-me uma de loucura, porque não fazer 35 km e comemorar desta forma os 35 anos do Vítor Veloso já que não o pude fazer no próprio dia do aniversário dele? Se o pensei, melhor o fiz, iria correr essa distância, 17,5km para lá e os respectivos 17,5 do retorno.
GPS a zeros, cronómetro a funcionar e lá vou eu. Os km acumulam-se. Passo a Fonte da Telha e a Praia do Americano. Nunca tinha corrido para além destas praias, a partir daí seria o desconhecido.
As gaivotas, friorentas, aguardavam no areal que o sol abrisse para secarem as penas e poderem voar. À minha passagem que remédio tiveram elas senão esvoaçar e pousar metros depois.
Pela primeira vez vejo a "Lagoa da Albufeira", mas até aí ainda não eram os 17,5 km (o GPS marcava 14,9km). A maré estava a encher, tinha que passar para o outro lado. Retiro o cinto, coloco-o sobre a cabeça e lá vou eu. A corrente estava forte em direcção ao mar. A água dava-me pelo meio do peito mas continuo a avançar. Fico em dificuldades pois só com uma mão não podia fazer muita coisa, teriam que ser as pernas a suportar a forte corrente. Eis-me do outro lado. A areia aí era muito parecida com a que tive em Melides, muito solta e grossa. Mas estava decidido e assim lá vou. A areia melhorou e começo a ver muita gente como tinham vindo ao mundo. Não sabia que praias eram aquelas, afinal estava na zona da famosa "Praia do Meco". O GPS marca 17,5 km, e o cronómetro 1h52’, estava na hora de voltar. Pergunto a um naturista que praia era e ele diz-me que era a “Praia das Bicas”.
Bebo pela primeira vez a água que tinha levado, mas como o depósito é pequeno só bebi um pouco pois ainda faltavam muitos km para acabar e lá para mais adiante a água seria importante para poder acabar o treino sem problemas.
O regresso, chego de novo à Lagoa de Albufeira. A maré mais cheia e tirando de novo o cinturão atiro-me à água. Aqui assustei-me, tentava avançar e a corrente a empurrar com mais força para o mar.
O pessoal, à berma da Lagoa, devia pensar que eu tinha fugido do "Júlio de Matos". Com um cinturão à cabeça e a tentar chegar ao outro lado só de doidos. Mas não podia fazer mais nada, só me restava atravessar.
Fui bebendo pequenos goles da limonada até que esta acabou, estava na Fonte da Telha. O sol já apertava e eis que uma dor me apoquenta o joelho direito quando ainda faltavam 4.9 km para os restantes 17,5 km. A partir daí só me restava correr e andar até ao fim. A secura já se fazia sentir, teria que encher o depósito e iria fazê-lo num Restaurante de uma das praias. Mas ao olhar para cima, para o areal solto, vi uma geleira. Se há uma geleira há água fresca de certeza, pois estavam lá duas mulheres e um homem. Cerveja para os homens, água para as mulheres. Desloquei-me até lá e perguntei se não havia um pouco de água para me encher o cantil. Aberta a geleira, água fresquinha. Encheu-me e eu bebi logo tudo de seguida. Perguntou se queria mais e eu. «Se puder ser!» e foi. Obrigado! Já de cantil cheio, até a dor do joelho passou.
Passo a “Praia da Mata”, sei que a partir daí só falta 1,2 km para chegar ao destino. A minha filha e o meu genro, que tinham vindo até à praia, esperavam pela minha chegada, que aconteceu 4h09’26’’ depois de ter partido.
P.S. - Os 35 km foram feitos descalço. O Mestre sapateiro que nos fez as solas dos pés é bom. O "acento" que está no nome do Vítor é o pequeno depósito de água.