31.3.10

E era uma vez uma carrinha...



Sabemos bem que as pequenas coletividades têm grandes dificuldades de tesouraria e vivem quase sempre da exploração de um pequeno bar e/ou de algum pequeno empresário que a troco de uma publicidade numa camisola, consegue dar a conhecer a sua empresa quase sempre dedicada à construção civil ou a ela relacionada.

Assim acontecia no G.R.D. de Famões, coletividade por qual corri em 1992 e 1993.

Tínhamos um grupo jeitoso de miúdos(as) que faziam alguns brilharetes nas provas de bairro. Hoje já são homens e mulheres, muitos já com filhos, torna-se difícil reconhecer neles os miúdos de outrora, mas foram dois anos de algumas conquistas mesmo a nível de direção que estava mais vocacionada a apoiarem o futebol pois, como se sabe, o atletismo foi sempre o parente pobre do desporto.

O Famões para transporte para os diversos locais onde se iam desenrolar as provas tinha uma velha carrinha. Para virar a direção quase que era necessário comer um boi, mas nessa altura não havia inspeção e lá íamos todos os domingos na carrinha a deitar fumo negro pelo escape que qualquer carro que fosse atrás acendia os faróis pensando que tinha havido algum eclipse do sol.

Um dia calhou-me levar a carrinha para uma prova em Casais da Marinela, ali para os lados de Alenquer. Escusado será dizer que quando lá consegui chegar já ia estourado pois para além do problema da direção também vi-me “grego” para conseguir que a malvada chegasse ao Centro de Convívio onde teriam início as provas para os diversos escalões já que era sempre a subir até ao Centro.

Aqui com os meus filhos gémeos

Provas acabadas há que regressar a Famões. Mas aquela carrinha nunca mais lá chegaria. Na A8 (que estava em construção) negou-se a andar mais. Com um “cof-cof” final encostei-a à berma e aquilo era só garotada a sair de lá de dentro. A questão seguinte era como levá-los até à Sede, pois não os íamos fazer correr de perto de Loures até Famões. Lá abrimos os cordões à bolsa, foram chamados alguns táxis e assim se fez o resto da viagem.

A carrinha lá ficou e dali foi para o ferro-velho. Ainda devem haver coletivadades como a de Famões (já não tem atletismo), que fazem das tripas coração para que os jovens pratiquem desporto em vez de outros “desportos“ que corrompem o seu futuro. Infelizmente as Câmaras vão dando a machadada final e, assim, qualquer dia, não haverá atletismo nos bairros do nosso País, só os grandes eventos irão sobreviver graças ao bolso de cada um de nós.

A acabar a prova de 3km em 10' 33''

27.3.10

De Menina a Mulher





  Estavas no teu quarto sentada no chão, a separar as tuas coisas. Vi-te ali e recordei o dia em que nasceste. A primeira dos quatro. Tão pequenina, nascida antes do tempo, mas nada de cuidados, tiveste pressa em sair, nada mais!

  Olho para as fotos e ali estou eu a mudar-te as fraldas, a dar-te o biberão, a ver-te crescer!

  Lembro-me que, à socapa, pela porta entreaberta, te via desfolhar os meus livros que estavam na prateleira da cama.

  Lembro-me quando de mansinho de manhã bem cedo, te ia ver na sala e lá estavas tu com a TV ligada a ver os “bonecos”.

  Lembro-me quando te mostramos a tua irmã, e tu com uma sacolita ao ombro, olhavas com um sorriso do tamanho do mundo (que ainda hoje tens) para a tua “manita” mais nova.

  Lembro-me quando comprei o sistema para desligar a TV a determinada hora e tu durante uns tempos, fazias uma maroteira, ligavas os pinos e na hora de deitar, voltavas a colocá-los conforme eu os tinha deixado. Mas havia sempre um que não ficava como estava e durante uns tempos deixei-te pensar que te ias deitar a horas.

  Lembro-me quando comprei o “Spectrum” e ali passávamos horas a jogar com as plataformas, com os tiros às portas (de vez em quando lá ia um inocente), com as corridas e tu sempre a dar-lhe que até um dia lá se foi o “Spectrum”.

  Lembro-me do teu primeiro dia que foste para a escola primária e a foto que te tirei a abrires a porta de casa.

  Lembro-me quando, com a tua pasta de finalista na benção das fitas, com a tua capa preta sobre os ombros, ali na Cidade Universitária, todos nós te abraçamos orgulhosos por estares a um passo de acabares o teu curso.

  E os dias se transformaram em anos, de menina passaste a mulher, sempre junto a nós!

  Mas este dia teria que acontecer mais cedo ou mais tarde! Os pais desejam o melhor deste mundo para os seus filhos!...

Hoje é o dia do Teu Casamento... Que sejas feliz minha Filha!

23.3.10

O Canto da Ponte



                              A Ponte 25 de Abril cheia de gente
                              Muitos sorrisos, muita alegria
                              O CCD de Loures sempre presente
                              Já há muito faz esta romaria

                                      Da Ponte não vejo o Terreiro
                                      Mas não por causa da multidão
                                      Há sobre a cidade nevoeiro
                                      Como aguardando D. Sebastião

                              Vejo a Rosa de phones nos ouvidos
                              Dançando ao som do Rock And Roll
                              Ela que andou por caminhos perdidos
                              Lá longe, nos trilhos de Almourol

                                      Converso com o Pedro Ferreira
                                      Sei que há ali na distância batismo
                                      Vão correr a meia pela vez primeira
                                      O Rui, o Zé Pedro e o Levezinho

                              Um abraço ao Fábio Dias
                              Ao Hamilton e ao Rui Carmo
                              Fala-se muito de corridas
                              E os “vip’s” a aquecerem ao largo

                                      Alguns com uma boa pança
                                      De corredores nada se via
                                      E o Luís Mota junto à segurança
                                      Há duas horas parado… Aquecia

                              A meu lado outro campeão
                              O Hugo Adelino bem os olhava
                              Passariam depois os vip’s de ocasião
                              Como cão por vinha vindimada

                                      Partida, fugida às pressas
                                      Lá vai o pessoal num tropel
                                      Ouvem-se línguas diversas
                                      Parecia a Torre de Babel

                              Pensamento fisiológico me açoita
                              Parecia o filósofo Séneca
                              Logo a seguir atrás de uma moita
                              Fiz uma pequena paragem “técnica”

                                      Olho para o lado e quem vejo
                                      O Vítor Veloso e o António Almeida
                                      Sigo com eles e tenho o ensejo
                                      De acabar com eles a meia

                              Vimos o Carlos Lopes amigo
                              À perna, agarrado estava
                              Demos-lhe o incentivo
                              E lá foi ele em disparada

                                      Mas uma coisa é desejar
                                      A realidade é bem mais dura
                                      Aos 8km foi o meu acabar
                                      E lá se foi a pendura

                              Aos gritos de Mama Sumé
                              Passam os Comandos bons rapazes
                              Assim mesmo amigos é que é
                              A Sorte Protege os Audazes

                                      Cumprimento o Parro que apadrinha
                                      A estreia da esposa na meia
                                      Vai o Paulo Póvoa a toda a brida
                                      E pouco depois o José Pereira

                              Vejo o António Henriques e o Valério
                              O Costa e alguns petizes
                              Em dificuldades e de rosto sério
                              Em expressões nada felizes

                                      Junto-me ao “Mission impossible”
                                      Iam todos em ritmo certo
                                      Não vi o Pára é “incredible”
                                      E ele ali do “Comando” tão perto

                              Vejo a Meta até que enfim
                              Tomo logo a dianteira
                              A Rosa Mota espera por mim?
                              Não!.. É pelo Mário Ferreira


                                      Meta cortada, medalha ao peito
                                      Depois é o que se sabe no final
                                      Não há filas, não há respeito
                                      É gente medíocre de Portugal


                              Se esta minha má vontade passar
                              À Ponte pró ano hei-de voltar

22.3.10

Já não há Pontes como dantes!





Em 1992 fiz a minha primeira travessia da Ponte 25 de Abril. Era a sua 2ª edição e éramos meia-dúzia de gatos pingados. A prova começava às 9h30' e só era fechada metade da ponte poucos minutos antes de começarmos a correr.

Dava tempo para se aquecer sem problemas de espaço e para se fazerem tempos muito bons. Na minha primeira prova, pouco menos de seis meses depois de começar a correr foi de 1h24'10'' e devido à minha classificação ainda ganhei 1000 escudos.

O melhor ano foi em 1995 com 1h21'36''. Agora são aos milhares em cima da ponte. Não dá para aquecer pois os da mini juntam-se aos da meia-maratona e aquilo é uma confusão à partida. Isto é como na vida, quando os não consegues vencer junta-te a eles, mas isso não é para mim.

Duas horas ali parado em cima da ponte para não ter que caminhar ao lado de quem vai caminhar e não correr, é muito tempo. Com a de ontem são 14 as vezes que atravessei a ponte. O Cristo Rei continua a abraçar Lisboa, os autocarros cheios de multidões continuam a despejar ali na zona da portagem, as manifestações de alegria são imensas pois até que enfim que chegou o dia que muitas pessoas aguardavam para puderem atravessar a ponte a pé nem que seja uma única vez na vida e cada vez mais somo mais tempo aos mesmos kms.

Não sou saudosista e acho que as pessoas fazem muito bem em irem correr à ponte, mas aquela confusão da partida e chegada, lutarem por mais um saco e um gelado é de um povoléu ainda sem o mínimo de cidadania para participarem em provas deste gabarito.

Um segurança retirou um saco a mais que um indivíduo levava ao ombro. O argumento dele é que tinha pedido mais um saco para dar à mãe que se encontrava doente e abespinhou-se contra o segurança. Felizmente este não se amedrontou e disse-lhe. «Se quiser dar um saco à sua mãe dê o seu». Este segurança dava um bom Comando.


O meu Mama Sumae aos Comandos - Aqui Estamos, Prontos para o Sacrifício!

Para mim foi uma prova para esquecer. Corri, andei e só não desisti porque isso vai contra a minha forma de ser.

No fim ainda ia andando à pancada com um sujeito que achou que me deveria dar um chazinho. Prefiro um bom café, um café de Angola, bem apreciado no Café Baía, na Marginal de Luanda e não estou para aturar a mesquinhez de certas pessoas.

Obrigado Fernando pois fez bem em segurar-me. O resto da prova não teve história, excepto os bons amigos que lá na ponte e nos caminhos percorridos encontrei.

17.3.10

Os Novos Desafios



Vêm aí novos desafios. Estava aqui a Maratona Carlos Lopes mas a prova foi anulada, assim a mesma foi substituida por esta que será por certo mais do meu agrado:



Será um voltar de novo à Costa da Caparica onde o ano passado só fiz os 10km. Desta vez será a Meia-Maratona da Areia no dia 16 de Maio, incluindo o III Meeting Blogger.



Outro desafio, é dentro daquele que cada vez mais vou gostando de fazer, os Trilhos. A convite do Pára que não Pára, iremos fazer como equipe Pára&Comando a:



A Ultra Trail Geira / Via Nova Romana tem o seu inicio às 09h00 e será percorrida quase integralmente na via romana que unia Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astúrias), entre a milha XXXVIII e a milha XII, na distância de 50 km.

A partida será em Banos (Lobios) - Espanha



A chegada na Piscina de Caldelas (Amares) - Portugal



Esta Geira aliada às magníficas paisagens que se irão ver durante o percurso, fazem-me pensar que valerá à pena o esforço.







Outros desafios virão e deles darei conta noutros apontamentos.

Ler aqui como os Romanos faziam estas grandes Geiras As Mulas de Marius

15.3.10

A Vila, o Campino, a Lezíria e o Tejo



De volta à estrada (embora esta prova seja mista, asfalto/terra) a provas por mim já conhecidas há muitos anos, fazendo pensar que as provas de trilhos que fiz pelo meio não são mais do que fruto do meu imaginário, tão diferentes são elas destas que, ano após ano, percorro pelas estradas de Portugal e Espanha.


Eis-me ali em Vila Franca de Xira, com o nosso Grupo do CCD de Loures, pronto a começar uma prova que tendo 15km, iriam colocar uma interrogação de como iria reagir fisicamente, após 70km de trilhos e tendo feito um único treino de 40' a meio da semana pois mais não consegui fazer.

No aquecimento encontrei o amigo Pedro Ferreira que desta vez não correu, o Luís Mota e o Carlos Coelho que, infelizmente, durante a prova, teve um aborrecimento com um sujeito que pensando que o percurso era só dele o empurrou. Quem não sente não é filho de boa gente e houve ali logo sururu.

Começada a prova vou com o amigo Costa num ritmo de 4'40''/km. Consegui até perto dos 7,5km aguentar o andamento (embora a prova não tivesse placas informativas, a experiência e informações colaterais são suficiente para aferir as distâncias com pouca margem de erro).


O Costa, homem da Maratona, vai-se embora, e eu abrando o ritmo, sabendo que não aguentaria colocando o andamento que daria garantias de chegar ao fim sem muitos problemas físicos e já a começar a habituar o corpo para outros andamentos, pois irei fazer a Maratona Carlos Lopes em Abril.

Assim fui vendo aquilo que mal reparava das outras vezes que fiz esta prova, os campinos com o seu traje típico, os campos semi-alagados e o Tejo. Ah o Tejo que tinha visto há uma semana atrás noutras latitudes, alagando terrenos, onde copas das ramagens de árvores saíam das suas águas, pedindo aos céus clemência, para que a chuva parasse e pudessem sair daquele tormento de lama, rejuvenescidas.

E o Tejo tão perto.


Quase a acabar vejo rostos conhecidos, um chamamento e um clic, para surpresa minha, de uma voz que já me começa a ser familiar: «Mário» e ali estava a Isabel, esposa do António Almeida que há última hora resolveu participar, a Ruth, esposa do Vitor Veloso (que me tinha visto à partida) com a sua pequena Carolina.


Já um pouco cansado, 1h15'49'' depois acabei a prova.


A confraternização final com o João Melo dentro do pavilhão, os casais Almeida e Veloso, o vizinho vilacondense Miguel Paiva, já que sou poveiro, a Mariana e o Luís Carlos, ambos ficaram em 1º lugar nos respectivos escalões, filhos do Luis Mota e da Susan, que vieram de propósito de Tomar para participarem nesta prova e o Joaquim Adelino, o meu outro companheiro de aventuras trailianas, para além do Costa e da Susana. Parabéns a todos estes amigos.



Agora as ofertas estão mais requintadas, com t-shirts onde o suor se evapora rapidamente, ficámos logo sequinhos!



Infelizmente tive que partir em ritmo de corrida pois o pessoal já me aguardava na carrinha do CCD para um regresso a casa. Soube que o Fábio Dias estava lá pelo irmão Hamilton mas já não deu para aquele abraço.

Outras Fotos desta prova:

Isabel Almeida

12.3.10

Trilhos de Almourol - As Fotos

As fotos que aqui vão aparecer (ou nos temas anteriores), nenhuma delas foi tirada por mim. São de fotógrafos solicitados pela Organização, por familiares dos corredores, ou de companheiros e amigos que foram tirando fotos ao percorrerem estes trilhos.

É de louvar que, para além do esforço, tenham parado aqui e ali e em andamento, nos tenham dado o percurso na sua quase totalidade. Escolhi onde eu estava e uma ou outra para verem o quanto esta prova foi dura, mas penso que nunca será demais vê-las para quem na prova participou e queira mais tarde recordar. Assim aqui fica o link para o blogue do Brito Os Trilhos de Almourol, é só clicar!

O meu muito Obrigado a todos os fotógrafos!

10.3.10

A Minha Odisseia - Trilhos de Almourol



Continuação do tema anterior 36 Anos Depois



Ó mar eterno, mar eterno,
Que no tempo perduras,
Canta-te em “Odisseia” Homero,
Heróis de fantásticas aventuras.


Poesia: "Mar Eterno" - Mário Lima - Nov.75


Entrados na estrada, em sentido contrário havia uma prova de BTT, já enlameados, há um novo regresso aos trilhos, à lama e desta vez havia um pequeno ribeiro onde se aproveitou para se lavar os ténis. Mas não valia a pena, logo a seguir nova subida e mais lama.


Seguindo pelo estradão de novo, a seguir a uma curva vejo uma obra de Engenharia. A Escola Prática de Engenharia tinha colocado uma ponte sobre botes de forma a se poder atravessar o rio Nabão sem problemas.


Depois é um sobe e desce por terra e mato com lama, muita lama, com passagem por baixo da ponte ferroviária, em cima de cascalho, até Constância. Já nessa altura o António Almeida (obrigado amigo pela tua companhia) se tinha ido embora. Camões, do outro lado do rio, deveria estar a escrever uma Ode a estes valentes que por tais trilhos se aventuraram. Depois de abastecido, novas subidas em terras pretas, amarelas, charcos e cada vez mais cansado. Uma pequena ponte de madeira faria inveja aos romanos.


Passo pelo apeadeiro do comboio de Almourol mas já na companhia do Paulo Paredes. Passagem pela Escola Prática de Engenharia e após uma subida penosa penso que foi aí que nos enganamos no percurso. Não vimos as fitas rentes ao solo, continuamos sempre em frente e de repente ouvimos uma voz vinda do arvoredo em baixo: «Vocês estão enganados, a descida é lá atrás. Voltamos e entramos no trilho certo. Pouco depois fomos alertados por alguém da organização com uma BTT, para o magnífico espectáculo que iríamos ver, o Castelo de Almourol. Confesso que permaneci ali algum tempo a olhar para aquele Castelo magnífico no meio das águas do Tejo. Soberbo!


Pouco depois a Susana passou por nós. Ia ligeira e fiquei satisfeito de a ver. Felizmente tudo tinha corrido bem lá na barragem. Pensei em acompanhá-la mas o Pedro estava em dificuldades e como estávamos sós esperei que mais alguém se chegasse a nós e abalei. Descia, voltava a subir, poças, lama e nunca mais o acabar. Estava desesperado pois para além das pedras nos ténis, uma dor aguda alojou-se no ombro impedindo-me a locomoção normal pois só fazia movimentos com um braço. Depois de mais um abastecimento, mais uma maravilha, passar por um túnel que dava acesso ao outro lado da linha do comboio. Aí o segundo engano. Uma das moças disse para seguir, virar à esquerda e depois direita. Fui sempre em frente à espera de voltar à esquerda. Pensei que teria que voltar a passar a linha do comboio de novo, mas havia algo que estava mal. Pareceu-me ter visto algo a agitar ao vento no solo alguns bons metros atrás. Olho para trás e ao longe estava o pessoal frenético a agitar os braços como a dizer que estava enganado. Lá voltei e entrei mais uma vez no trilho. No cimo um canzarrão mostrou-me os dentes mal encarado. Mas já estava por tudo.

Confesso que estava há espera de encontrar a rampa “Delta da Lebre” os "Rolling Stones" conforme a defini, a tal dos seixos rolantes, sinal que estaria perto da meta. Vejo a Rosa e coloco-me ao lado dela. Sempre seria melhor em companhia. Mas a Rosa tem outra pedalada, enquanto eu subia com as mãos nas pernas ela subia com dificuldade mas na maior. Passávamos os dois num lamaçal, enfio os pés naquilo, que se lixe, já nada me importava. Atrás ouço a Rosa aflita, os ténis e pernas estavam atolados, ela disse-me, depois de lá sair, que aquilo pareciam areias movediças. Lá continuamos. Ela adiantou-se, olho para trás e quem vejo?! O Pára que não para, não o fazia ali. Tentei adiantar-me mas as dores no ombro eram muitas e as das pernas não eram menores. Ao fazermos o acesso ao 33,5km onde estava o abastecimento, avisaram-nos que tínhamos que virar à direita, mas do lado esquerdo também haviam fitas e a Rosa com os “phones” nos ouvidos, não ouvindo a indicação, voltou à esquerda. Bem gritei por ela e ela nada, sempre em frente, afastando-se cada vez mais. Não tive outro remédio senão ir buscá-la. Não sei onde fui buscar energia para "sprintar" e trazê-la de volta ao caminho certo. O Joaquim ficou à nossa espera no abastecimento. Pergunto à Otília se os seixos que tínhamos passado anteriormente eram os tais, e ela disse-me que não, eram outros mais à frente. Na foto tenho um sorriso mas já não sabia se devia sorrir se chorar!


Depois foi um tormento até ao fim. A Rosa e o Joaquim foram-se, subi os seixos, desci, subi o trilho dos gatos, lama barrenta e nela vejo... uma perna de galinha! Deve ter havido uma noite de folia para os gatos das redondezas. Depois foi um caminhar junto à A1. Os carros em alta velocidade e eu em passo de caracol. Lavei os ténis na albufeira do Jardim do Bonito, mas logo a seguir mais um trilho, voltei a ficar cheio de lama, sempre incentivado pela Célia Azenha que tinha passado por mim, foi percorrendo os metros (kms?) que me faltavam, mas já não corria, andava com o braço junto ao corpo. As dores eram enormes, de repente ouço uma voz a chamar por mim, era a Isabel, esposa do António Almeida. Não era agora que iriam ver o meu sofrimento, arranquei e com o sorriso possível nos lábios, 5h43'24'' depois de iniciar a prova, cortei a Meta.



Para a organização da CLAC, nas pessoas do Brito e Otília, os meus Parabéns pela prova. A prova é dura, teve kms a mais, quase que jurei em não me meter noutra, mas penso no próximo ano lá voltar!

Irei colocar um último tema dedicado a esta prova. Mas será toda ela de fotos. Há muitas e ficarão aqui como registo de alguém, eu, que com sete dias de diferença, percorreu 70km por montes e vales, por lama e charcos, por pedras escorregadias, por rios, por vistas maravilhosas, mas essencialmente com os amigos; a família Almeida, a família Veloso, o Carlos Coelho, o Pedro Marinho, outros amigos e a equipa do Pára&Comando.

9.3.10

36 Anos Depois - Trilhos de Almourol

Cabinda - 1974

Tínhamos que sair do quartel em patrulha. Carregados com as nossas mochilas, ponche (camuflado impermeável), e mosquiteiro enrolado ao pescoço, percorríamos muitos km’s em vários dias por picadas, com poças de água estagnada, e trilhos abertos na floresta do Maiombe. Aqui e ali árvores de grande porte tombadas requeriam atenção redobrada pois não sabíamos o que poderia estar atrás delas. Por vezes, embrenhávamos na floresta cortando cipós que se atravessavam no caminho para um objectivo previamente definido ou simplesmente para descansar. O cansaço era muito, o Alferes tinha ficado sentado, já não podia mais. Apercebendo-me disso, parei e voltei para trás. O radiotelegrafista liga para o quartel a fim de ser enviado um Unimog para evacuação do Alferes e, deixando-lhe um grupo de segurança, sigo o trilho, com o meu grupo de combate, até ao objectivo.


36 Anos Depois

No alto da encosta o fotógrafo (Fernando Cerdeira) observa-me. Cansado de tantos km’s percorridos, olho para cima e só vejo sulcos de lama deixados pelos outros corredores. Não há onde me agarrar a não ser uma vegetação rasteira cheia de picos. Felizmente levava luvas e fui subindo lentamente. Os meus companheiros que iam à frente já tinham subido, restava eu. Olho para trás, não via ninguém. Só o fotógrafo, sereno, aguardava a minha subida. A minha vontade era sentar-me e aguardar que alguém ali me viesse buscar, lembrei-me do Alferes, olhei mais uma vez para cima, a máquina disparou e, num impulso, galguei os últimos metros que me separavam do topo. Esperavam-me mais 20km para atingir o objectivo,... a meta.

I Trilhos de Almourol


O Grupo Pára&Comando, formado por mim, Susana, Costa e Joaquim Adelino aguardavam na Aldeia do Mato que a partida fosse dada.


Sabíamos, pelo Brito, que tinha sido alterada a quilometragem do percurso, de 35 para 38km (seriam 40km, mais aqueles que fiz por me ter enganado).

Vou em andamento rápido com o Vítor Veloso. Ao contrário do que fizera uma semana antes em Sicó, a minha intenção era desfrutar ao máximo a beleza da natureza envolvente, se necessário parar e apreciar. Foi o que fiz. Já com o António Almeida, um olhar da Barragem do Castelo de Bode, onde a água saía em jacto da sua boca escancarada.


Umas fotos tiradas e seguimos. Depois foi a descida para a barragem. O terreno estava escorregadio, se algum pé falhasse era certo que não iríamos segurar-nos naquele piso.


Nessa altura pensei na Susana, no que poderia acontecer-lhe pois o trilho estava mau demais para quem se ia meter numa aventura deste tipo pela 1ª vez (mais tarde tive a grata surpresa de a ver passar por mim feliz que nem uma gazela).

Depois, já com a companhia da Analice, foi saltar árvores, passar por caminhos estreitos e eis um barquinho ancorado nas águas turbulentas do Rio Zêzere.



Continua

Fotos: Fernando Cerdeira, Pedro Mestre (AMMAMAGAZINE), Paulo Fernandes (Lebres do Sado) e Pedro Caetano - AbutresRunningTeam

P.S. - Na foto da tropa, estou no interior da floresta do Maiombe. Atrás de mim um rio passava, o rio Chiloango

3.3.10

O Castelo de Almourol

É curioso o facto de neste fim-de-semana correr nos Trilhos de Almourol quando, o ano passado, um dos meus pontos de passagem em férias foi exatamente (atenção ao novo acordo ortográfico ) Tancos e o Castelo de Almourol.

Aqui fica o texto que está no meu Rumo ao Sul, referente a esse Castelo.




Marius dirige-se para aquele Castelo que o fascina. Como referiu no tema anterior (Tancos e o Tejo), o que levara à sua construção no meio do rio Tejo? Para que fim e qual a sua utilidade, já que seria presa fácil de quem o quisesse tomar? Era só cercá-lo e aguardar que os seus habitantes se rendessem pela fome.


O Castelo de Almourol já em 1129 existia, aquando da conquista da região por D. Afonso Henriques.

Foi entregue aos Templários até a sua expulsão de Portugal. Estudos feitos, já os romanos se tinham por lá fortificados no século I A.C., depois vieram os alanos, visigodos e mouros e o Castelo, todos estes povos viu passar.

Pelas pesquisas que Marius fez, o Castelo teria grande influência no comércio náutico entre Lisboa e outros locais. Talvez um sistema de controlo alfandegário dos abastecimentos de e para Lisboa, na época já um grande porto marítimo, embora a capital fosse Coimbra.

O Castelo de Almourol também tem as suas lendas e esta tem muito a ver como os cristãos conquistaram o Castelo.

Lenda de Almorolon

No longínquo séc. XII, pouco antes da chegada de D. Afonso Henriques e seus cavaleiros ao Tejo, o Castelo de Almourol tinha como senhor um emir árabe, de seu nome Almorolon. Terá sido por causa do seu nobre gesto que o castelo ficou com o nome que tem.

O emir habitava no castelo com a sua filha, uma formosa donzela, que enchia de beleza não só o castelo como toda a paisagem à sua volta.

Mas um dia, tão formosa dama apaixonou-se por um jovem cavaleiro cristão, e cega pela paixão, ensinou-lhe como poderia entrar no castelo, durante a noite, para repetidas visitas amorosas.

Numa dessas noites, o jovem cristão, não foi sozinho, e abriu as portas do castelo para um exército invadir esse bastião dos mouros.

Foi de forma traiçoeira que o castelo foi conquistado.

Mas no final, o amor de pai foi mais forte e perdoou a inconsciência de sua filha. Preferindo a morte ao cativeiro, Almorolon e sua filha, lançaram-se abraçados das muralhas do castelo ao rio.


Marius, vai até junto ao rio. O barqueiro anda por ali tentando levar alguém para dar uma vista de olhos ao Castelo. Mas este estava em obras de restauração e não se podia sentir de perto a história emanada das suas muralhas. Olha para aquele bocado de terra granítica onde sobressai um Castelo dos mais lindos que já viu durante o seu percurso por terras de Portugal .

O rio Tejo bonançoso espelhava toda aquela magnitude no seu leito. O murmúrio das suas águas faziam com que se olhasse para aquelas torres, filtradas pela luz do sol no seu ocaso.

Marius se tivesse que ficar ali ouviria por certo, de noite, a moura encantada, chamando pelo seu cavaleiro amado.

Mas teria que partir, outras terras o aguardavam, olhando para o Castelo que tanto o fascinou, pegou no seu cavalo e partiu rumo a Torres Novas.



Fotos: Marius70
Fontes consultadas:
Castelo de Almourol

1.3.10

Por esta Serra acima





Seria a primeira vez que iria fazer um Trail após quase 20 anos de estrada. Sabia que iria subir e descer a Serra mas não tinha a mínima ideia de como seria isso. O teino para esse trail foi igual a tantos outros, nunca subi nada, a não ser na prova do Fim da Europa e corri sempre nos mesmos locais de treino.

Ansiava o dia de partir para Condeixa. Nunca coloquei em mim a dificuldade de correr 30 km em plena serra sem preparação adequada para tal. O convite tinha partido do Pára Joaquim Adelino e ali estávamos nós, o Pára&Comando, juntamente com o companheiro Elísio Costa, prontos para a aventura em Terras de Sicó.


Chegados no Sábado, após o termos apanhado um vendaval na autoestrada na zona de Leiria, foi o levantar dos dorsais e a simpatia de quem nos recebia no Pavilhão, fez amainar tudo o que lá fora bramia. Depois do jantar há que ver o Leixões – Benfica e toca a dormir. Foi o dormir possível...

Se no Sábado chovia, o Domingo acordou com sol embora de pouca dura. Esfriou, luvas metidas, há que aquecer e um olhar para a serra que nos fitava entre a bruma.

Um encontro com o Luís Mota preparadíssimo para uma prova de alto nível como se veio a confirmar, os conselhos da Otília sobre a melhor forma de encarar este tipo de prova e eis os Pára&Comando para a sua primeira prova juntos.

Eu aqui subindo a Serra - Foto Miguel Pessoa

Sabem uma coisa? A prova foi linda pá. Os olhos são a melhor máquina fotográfica que temos. Eles retêm tudo. O subir a serra, aquele rio dos Mouros que deslizava junto a nós, cascatas, caindo como cabelos de deusas, campos de um verde lindo na Aldeia do Poço. Na Serra de Janeanes, os trilhos agrestes, rochas escorregadias, lamaçal, mas uma visão linda sobre todo o vale das Terras de Sicó, a simpatia das suas gentes, deste Portugal profundo que o citadino não conhece. A Aldeia de Casmilo e as suas Buracas que nos fazem pensar no quanto é poderosa a natureza por tal feito...

O Trilho por onde passamos e as Buracas de Casmilo - Foto da net

... as casas feitas da pedra da região, o Furadouro, na Aldeia do Peixeiro, quando ia em descida, aparece o pastor com os seus cabrestos no meio da estrada, hesitei em avançar para não assustar a bicharada mas o pastor disse-me logo: «Avance que elas afastam-se», e assim foi, e Ameixeira onde se encontrava o amigo José Magro a incentivarmos. Nos abastecimentos havia um manancial de banana, queijo da região e laranjas, só faltava um copinho de vinho a acompanhar.

Durante a prova só bebi água (tomei três Gel e nada mais, queria ver até onde ia a minha resistência). Uma nova passagem pela ponte romana em direção a Conímbriga e por fim a meta. Corri, andei, quase que rastejei, mas nunca parei.

Cansado, mas sem uma única lamúria física a não ser umas pequenas cãibras nos dedos dos pés (foi uma novidade pois só tinha tido esse tipo de cãibra no mar) fiz o meu primeiro trilho. Gostei e já este fim-de-semana, o Pára&Comando voltará a repetir a dose (35km), com a inclusão da Susana nos Trilhos de Almourol

Quem pensar que isto tem alguma vez a ver com provas de estrada ou que o tipo de preparação é o mesmo esqueça. Nada é parecido com isto, só participando é que sabe o quanto é custoso, talvez em certos aspectos doloroso, mas é lindo!

Uma última palavra para a organização do ”O Mundo da Corrida”, impecável. Desde os abastecimentos ao apoio logístico não nos faltou nada.

Os tempos e os lugares alcançados, nos respectivos escalões, da Equipa Pára&Comando no 1º Trail Terras de Sicó:

Elísio Costa – 3h19’04’’ – 24º Vet. IV

Mário Lima – 3h46’46’’ – 18º Vet. V

Joaquim Adelino – 3h49’42’’ – 5º Vet. VI

Depois do almoço, uma árvore florida dava-nos a despedida!





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