Uma UMA que tinha todas as condições para ser a melhor UMA das duas que já tinha feito acabou por ser a pior das três. Não devido às dificuldades do terreno pois desta vez o areal estava ótimo para correr, exceto nos primeiros 4/5 km que ainda se apanhou a maré a vazar, mas por outros pormenores que fazem a diferença em termos de organização dos anos anteriores.
Vamos por partes
Tendo estado a trabalhar em horário incómodo e à falta de preparação para uma aventura destas, sabia que iria sofrer, afinal o que já me tinha acontecido nas provas anteriores. O azar é que no sábado mais uma vez uma dor se alojou na zona lombar que me impedia de andar. Felizmente encontrei um “spray” que, colocado no sábado, mais um “Voltaren”, no domingo a dor já era.
Na companhia da Analice e Vitor Veloso rumo a Setúbal onde se apanhou o “catamaran” mas sem em antes haver um congestionamento nas máquinas automáticas o que originou um atraso na saída do barco. Nada de mais!
Como sempre muitos amigos presentes e alguns ‘novatos’ nesta prova tentando saber o que os mais ‘velhos’ lhes podiam aconselhar para uma prova sem grandes sobressaltos. Como não há UMA’s iguais dá-se as informações necessárias, entre elas a da hidratação, a mais importante de todas.
Viagem sem sobressalto até Melides onde nos é entregue o dorsal e uma t-shirt, além do litro e meio de água, uma maçã, uma barra energética e dois cubos de marmelada. Aí verificámos que a t-shirt, laranja da ASICS, não tinha nenhuma menção sobre a prova mas, como os elementos da organização tinham uma toda XPTO, pensamos que se calhar nos dariam uma igual no final. A prova atrasou-se ligeiramente aguardando o ‘padrinho’ da prova, Carlos Lopes, que não se dignou em comparecer.
Prova começada, a adrenalina em alta, e lá vamos pelo areal. Como o referi os primeiros km foram feitos em areia relativamente solta com um entrar mesmo numa área aos 5,5km local de controlo em que já não consegui correr. Fui a passo, mas passada essa zona tudo normalizou. Ia comigo e foi quase até ao fim o Vítor Veloso. Disse que queria fazer a prova comigo e assim foi. Obrigado Vítor!
Fomos num bom ritmo, entre 6’30’’ e 7’15’’ consoante os pontos mais sensíveis do terreno. Verifiquei que o areal tem duas tonalidades; um mais “acastanhado” e outro mais “acinzentado”. Pisando o “acastanhado” o pé afunda-se ao contrário do "acinzentado" que, sendo mais compacto, os pés corriam sem problema algum. Procurei fazer isso mas claro que não evitava o ‘afundanço’ de vez em quando. Íamos para um nosso recorde da prova estrondoso.
Aos 26 km uma dor terrível nos ombros impediu-me de manter o ritmo. O peso do camelbak estava a fazer ‘mossa’. Nos anos anteriores tinha levado a mesma quantidade de água (a minha limonada) 1,5L. Não tive nenhum problema, desta vez algo não estava a correr bem. Procurei ajustar as cintas mas a dor já lá estava. Estava desesperado e o Vítor perguntou-me se iria desistir, claro que não! Iria até ao fim!
Paragem aos 28,5km, na Comporta, onde me foram dadas duas garrafas de 0,5 litro (houve quem tivesse recebido duas de 33cl, mas eu tenho, agora, a certeza que as minhas eram de 0,5 litro). Perguntei à organização se havia um “spray” para me aliviar as dores. Não havia mas uma massagista que lá estava prontificou-se a massajar as zonas doridas. Obrigado, melhorei um pouco, as dores foram atenuadas mas permanecerem até ao final.

O ano passado foi aqui que comi um bocado de pão e uma banana e caiu-me muito bem. Fiz o mesmo, mas desta vez caiu-me muito mal. Como disse não há duas UMA’s iguais e o que num ano foi bom neste foi péssimo. Mudei de meias. Estivemos 15’ neste local. Voltámos à corrida. Se o ano anterior foi aqui que apareceu a tal ‘parede’ de vento, agora o vento soprava, moderado mas quente. Entrava pela boca e secava tudo. Comecei a ter vómitos devido ao que tinha comido. Parei para o fazer, não o consegui mas deu a volta e melhorei. Logo a seguir cólicas e o Vítor à frente sempre a tentar marcar o ritmo, mas já não podia mais. Comecei a andar, e ele comigo, e os últimos 13 km foram feitos a andar.
O Vítor também já não estava bem, pois há muito que não fazia tamanha distância, mas a juventude tudo aguenta.
Os km foram palmilhados em 10’/11’ cada. Mas sabia que ia chegar ao fim. Colocava a mão debaixo do ‘camelbak’ para aliviar os ombros. Á nossa frente muitos companheiros pareciam ‘zombies’, alguns já sem água (o Vítor teve que ceder alguma da dele), um caído no chão, com cãibras, aguardava o transporte para a meta. Outros passavam por nós já sentados nas moto4. Dos 390 à partida desistiram 25.
Levei uma das garrafas que me deram aos 28,5 km, vazia, quase 10km até ao controlo dos 38,5. No entanto pelo areal eram só garrafas, gel e outro lixo que tais. É o povo que temos! Porco q.b..
Finalmente o insuflável, a emoção subia consoante me aproximava da meta. O pessoal batendo palmas à nossa passagem. Dei a um miúdo que nos acompanhou a barra energética que me tinham dado. Eu só queria chegar ao fim e beber uma Coca-Cola bem fresquinha, como no 1º ano que participei (no 2º estava quente).
43km e ainda faltavam aí uns 400 metros (foram 430 metros a mais). O Vítor para desentorpecer as pernas, vai-se embora (Obrigado mais uma vez Vítor), guardo-me para os 300 metros finais. E, com um sorriso nos lábios, ultrapasso a Meta. Tinha vencido a UMA mais uma vez, 6h08’03’’ (tempo oficial) depois da partida. Tinha batido o meu recorde anterior em cerca de 42’.

No final. Foto: José Carlos Melo
Depois foi o fracasso. Não houve mais ‘t-shirts’, fiquei (ficamos) com uma ‘laranjinha’ sem o 'logo' da prova. Pedi uma Coca-Cola e não havia. Bebi um “Guaraná” que estava quente, foi o fim da ‘picada’. Vomitei e senti-me mal disposto. Estava cansado, estoirado e tudo aquilo era irreal. Mais companheiros iam chegando, derreados. O calor sufocante tinha feito das suas.
Ganhei forças e fui com o Vítor dar um mergulho para aliviar as dores dos ombros, o cansaço do corpo e que tão bem me soube o banho.
Digo à Analice que se não houvesse prémio para ela, iríamos embora. Não iria esperar pelo lanche (que pelos vistos foi uma ‘barraca’ tremenda).
Eu, Analice e Vítor embarcámos no “catamaran” das 17h. Fiz a trilogia que me propus fazer destes eventos onde agora estou a participar. Nunca se deve dizer nunca, mas penso que esta foi a minha última participação na UMA.
Para os que correm aquilo em três/quatro horas é sinal de muita boa preparação, todos os outros é para sofrer. Capacidade de sofrimento tenho, mas não é para isso que aqui ando. Com horários incómodos, sem a preparação adequada fazer 43 km em areia é uma grande aventura e o meu tempo de grande aventureiro já passou!