Chego à Costa da Caparica pelas 8h da manhã com o céu ligeiramente encoberto. A intenção era fazer uma hora de treino como sempre. Coloco o cinto, encho o pequeno depósito de 180 ml com a limonada que tinha feito em casa e que estava numa garrafa de meio-litro e só com isto vou para o areal. Sem GEL, sem tabletes, sem mais nada, só o telemóvel, o pequeno depósito e um GPS de colocar ao pescoço oferecido pelas minhas filhas e genro no dia dos meus anos, que era para eu não me voltar a perder na serra. Este GPS iria servir só para verificar quantos km faria em 30’. No retorno este GPS vai reduzindo a quilometragem até ao ponto zero que será o ponto de partida. O meu olhar estende-se pela praia. Parecia uma auto-estrada, e então dá-me uma de loucura, porque não fazer 35 km e comemorar desta forma os 35 anos do
Vítor Veloso já que não o pude fazer no próprio dia do aniversário dele? Se o pensei, melhor o fiz, iria correr essa distância, 17,5km para lá e os respectivos 17,5 do retorno. GPS a zeros, cronómetro a funcionar e lá vou eu. Os km acumulam-se. Passo a Fonte da Telha e a Praia do Americano. Nunca tinha corrido para além destas praias, a partir daí seria o desconhecido. As gaivotas, friorentas, aguardavam no areal que o sol abrisse para secarem as penas e poderem voar. À minha passagem que remédio tiveram elas senão esvoaçar e pousar metros depois.

Pela primeira vez vejo a "Lagoa da Albufeira", mas até aí ainda não eram os 17,5 km (o GPS marcava 14,9km). A maré estava a encher, tinha que passar para o outro lado. Retiro o cinto, coloco-o sobre a cabeça e lá vou eu. A corrente estava forte em direcção ao mar. A água dava-me pelo meio do peito mas continuo a avançar. Fico em dificuldades pois só com uma mão não podia fazer muita coisa, teriam que ser as pernas a suportar a forte corrente. Eis-me do outro lado. A areia aí era muito parecida com a que tive em Melides, muito solta e grossa. Mas estava decidido e assim lá vou. A areia melhorou e começo a ver muita gente como tinham vindo ao mundo. Não sabia que praias eram aquelas, afinal estava na zona da famosa "Praia do Meco". O GPS marca 17,5 km, e o cronómetro 1h52’, estava na hora de voltar. Pergunto a um naturista que praia era e ele diz-me que era a “Praia das Bicas”.
Aos 17,5 km na "Praia das Bicas"Bebo pela primeira vez a água que tinha levado, mas como o depósito é pequeno só bebi um pouco pois ainda faltavam muitos km para acabar e lá para mais adiante a água seria importante para poder acabar o treino sem problemas. O regresso, chego de novo à Lagoa de Albufeira. A maré mais cheia e tirando de novo o cinturão atiro-me à água. Aqui assustei-me, tentava avançar e a corrente a empurrar com mais força para o mar. O pessoal, à berma da Lagoa, devia pensar que eu tinha fugido do "Júlio de Matos". Com um cinturão à cabeça e a tentar chegar ao outro lado só de doidos. Mas não podia fazer mais nada, só me restava atravessar.
A atravessar a "Lagoa de Albufeira" no retornoFui bebendo pequenos goles da limonada até que esta acabou, estava na Fonte da Telha. O sol já apertava e eis que uma dor me apoquenta o joelho direito quando ainda faltavam 4.9 km para os restantes 17,5 km. A partir daí só me restava correr e andar até ao fim. A secura já se fazia sentir, teria que encher o depósito e iria fazê-lo num Restaurante de uma das praias. Mas ao olhar para cima, para o areal solto, vi uma geleira. Se há uma geleira há água fresca de certeza, pois estavam lá duas mulheres e um homem. Cerveja para os homens, água para as mulheres. Desloquei-me até lá e perguntei se não havia um pouco de água para me encher o cantil. Aberta a geleira, água fresquinha. Encheu-me e eu bebi logo tudo de seguida. Perguntou se queria mais e eu. «Se puder ser!» e foi. Obrigado! Já de cantil cheio, até a dor do joelho passou. Passo a “Praia da Mata”, sei que a partir daí só falta 1,2 km para chegar ao destino. A minha filha e o meu genro, que tinham vindo até à praia, esperavam pela minha chegada, que aconteceu
4h09’26’’ depois de ter partido.
Escrevi na areia: «Parabéns Vítor, 35 kmP.S. - Os 35 km foram feitos descalço. O Mestre sapateiro que nos fez as solas dos pés é bom. O "acento" que está no nome do Vítor é o pequeno depósito de água.