4.2.21

O Jardineiro

"Almas lindas são assim... colaboram com a natureza!"

Que me lembre nunca plantei nada, ou se plantei nada medrou.

Mas a natureza tem destas coisas, pôs-me a fazer de jardineiro. E tudo por causa de uns ciclames (nem sabia o que isto era) que vi no pinhal. Chamou-me a atenção as suas cores no meio do verde e castanhos que por lá há. Hoje, antes do treino, fui até ao 'meu' jardim e reparei que haviam uns bolbos cujas raízes não estavam enterradas. Mãos à obra e eis-me a fazer buracos, retirar ervas daninhas em volta e lá fui colocando os bolbos e tapando com terra.

... e que lindo está ficando o 'meu' jardim pois nele está um pouco de mim.

2.2.21

Carlos Plácido

Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer.

Mahatma Gandhi

No domingo tentei mas não o consegui, correr 12 km sem parar.

Hoje os pés puseram-se a caminho depois de ter ido até ao pinhal ver umas flores a desabrocharem.

Fui inspirado e ao mesmo tempo queria dedicar este meu treino pós Covid a um companheiro de estrada que tinha morrido de Covid.

Companheiro de muitos anos no CCD de Loures, terminou o seu percurso de vida não numa corrida mas vitimado por esta 'gripezinha' que mata.

Para ti companheiro Carlos Plácido, um abraço do tamanho das muitas provas que fizemos.

Até sempre!

16.1.21

10 km pós Covid

No dia 3 de novembro recebi um telefonema de uma médica do Hospital Beatriz Ângelo, onde estive internado 23 dias a curar do Covid (saí do Hospital a 1 de outubro).

Surgiu luz verde, podia começar os treinos.

No dia seguinte comecei a treinar, objetivo 3 km sem parar. Consegui somente 1 km nesse dia. O resto foi caminhar intercalando com a corrida.

Corria três vezes por semana. Aos poucos ia aumentado o tempo de corrida. Mas não tinha massa muscular suficiente e cansava-me rapidamente (sequelas da doença). Ao 5º treino corria 1870 metros.

No dia 30 desse mês consegui correr os 3 km. Uma vitória para quem estava tão debilitado. Objetivo seguinte, 5 km.

No dia 18 de dezembro os 5 km sem parar. Consolidados os 5 km, objetivo seguinte, fazer 10 km até ao fim de janeiro.

6 km/7 km/8 km. Estes 8 km feitos no dia 14 deste mês.

Hoje, com 48 horas de descanso após esse treino de 8 km, que força se apoderou de mim? Hoje tinha que ser. No mesmo local onde treinava a Analice, fazia 8 km já cansado, mas não podia parar. Algo surgiu que me ajudou nesses dois últimos quilómetros.

... e, junto ao Clube das Patameiras, as lágrimas correram, tinha conseguido o objetivo.

"Tinha vencido a doença, tinha vencido os km"

9.1.21

Covid - 19 - O Tabuleiro

Notas finais.

Aos poucos vou recuperando a memória do que passei no hospital. Desde o meu primeiro banho de chuveiro que tão bem me soube ainda estava na UCI, dos enfermeiros Andrés (num turno eram todos André) às enfermeiras, às fisioterapeutas que me iam ajudando a fazer exercícios de recuperação tanto do andar (ia com um carrinho percorrendo toda a área da UCI), como respiratórios.

Aos que com a sua palavra de apoio e incentivo me iam ajudando a suportar toda a fase de recuperação do malfadado vírus, a quem me tentou fazer a barba, quando ele já não fazia a dele há quatro anos.

A todos os que estavam na UCI com aquele vestuário de astronauta, com o suor a escorrer-lhes pelo rosto, com dificuldades respiratórias devido às máscaras que usavam que tinham muitas vezes que sair para o exterior apanhar ar antes que desmaiassem (e isso ia acontecendo com uma das minhas fisioterapeutas), a todos eles e elas, o meu muito OBRIGADO. Foram enormes!
Uma das fases más era o de tirar o sangue para análise todos os dias, a busca pelas veias até que me colocarem um cateter para o efeito, ou junto ao pulso das artérias diminutas que me doíam terrivelmente, os elétrodos pelo corpo ligados à máquina, a algália, o não dormir, o olhar e ver outros nas mesmas condições numa luta contra a morte. O prazer de ver um companheiro da desdita no tal carrinho e percorrer os caminhos da vida.

Que todos se tenham salvado e estejam todos bem.

Uma coisa que sempre tive foi apetite. Todos os dias tinha pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. Doses pequenas mas que me sabiam bem. Enquanto estive na área Covid, o jantar trazia sempre o pequeno-almoço. Todos os dias de manhã impreterivelmente às 8:30, estava a tomar o pequeno-almoço. Depois do banho, sentava-me no cadeirão e ali ficava até ao lanche. De vez em quando lá dormitava, pois como referi, à noite era quase impossível fazê-lo pelos motivos que descrevi. Como a fruta era quase sempre maçã ou laranja, um dia perguntei à auxiliar se não arranjava uma banana. Ela saiu e pouco depois trazia uma banana para me dar. Não sei onde ela a foi desencantar mas, como o café, soube-me tão bem!...

Nos quartos tínhamos uma TV com os quatro canais. Estavam tão altas que só com uma vassoura é que se conseguia desligar aquilo o que fazíamos por volta da meia-noite, já que no turno da noite, vinham as enfermeiras para mais um retirar de sangue, ou dar comprimidos.
Último quarto, depois do segundo teste negativo, vou para a zona dos 'não Covid'. De cadeira de rodas, com a botija de oxigénio, a enfermeira lá me vai levando pelos corredores. A meio do caminho, aparece a auxiliar que leva o jantar aos quartos. Tinha lá o meu tabuleiro. E agora como fazer já que eu ia para outra zona?! Não há problema - disse eu - Levo o tabuleiro nas pernas.

E por aqueles corredores lá ia eu sentado com o tabuleiro. Entrei na zona dos não infetados. No quarto, 'A' fazia um barulho tremendo dando gritos. Tinha tido um AVC. Estava totalmente paralisado. Tudo era feito através de tubos e sondas. Rapaz novo mas com quatro filhos, ia ser mais tarde transferido para uma outra unidade hospitalar.
Dia 30 de setembro - penúltimo dia. Aguardo os resultados das análises bacterianas devido à febre que tinha tido nos dias anteriores. Dia 1 de outubro - De manhã tive um corrupio de estudantes de medicina, do Hospital Santa Maria, a fazerem-me perguntas, a auscultar o meu corpo. Chegou depois o resultado das análises, tudo negativo. Tive alta às 15:49.
Se tive tanta gente à minha volta no período da manhã, quando vou sair do hospital, não tinha ninguém. Perplexo pergunto à enfermeira no balcão como sair dali. Vá por este corredor, vire à esquerda, depois...

Naquele momento ia uma senhora a sair do hospital em cadeira de rodas, empurrada por uma enfermeira. Olhe, aproveite e vá atrás desta senhora. E eu que tinha só andado uns cem metros em fisioterapia, na hora da saída andei quase meio quilómetro.

Este meu testemunho não é para mim, nem para terem pena do que me aconteceu. É para todos aqueles que pensam que o vírus não existe. Que é tudo uma invenção, que não passa de uma gripezinha e eu que durante todo o período nunca tive gripe.

É para aqueles que chamam de mentira ao meu relatado, como se eu tivesse algum prazer em contar tudo isto que passei.

É para aqueles que facilitam, que pensam que a eles isto não acontece.

A todos os que duvidam que esta doença existe, que nunca passem pelo que eu e muitos outros que estiveram comigo passaram. Que tenham sorte!

Sequelas que ficaram.

Umas demoraram cerca de um mês a curar, outras persistem embora já diluídas no tempo. Afinal já se passaram três meses que saí do hospital.

Rouquidão (resolvido)
Feridas no nariz que originavam problemas respiratórios (resolvido)
Tosse seca persistente (resolvido)
Alergias nas virilhas devido ao uso de cuecas de plástico (chamava a estas cuecas de CR7. Resolvido)
Perda do olfato e paladar (a caminho de os ter)
Cansaço generalizado (continuo com problemas)
Nevralgias (tive que arrancar um dente)
Perdi 10 kg e massa muscular (quase recuperados)
Falhas de memória (vou recordando aos poucos)

Cuidem-se!